Como estimular a cidadania no país do “você sabe com quem está falando?”

Em uma pesquisa de campo que fiz recentemente para o trabalho de um curso, precisei conversar com pessoas pelas ruas para entender como era sua relação com o lixo. Todas elas reclamaram de ruas muito sujas, criticando papelões, sacos plásticos, cacos de vidro e outros objetos descartados pela população. E quando perguntei o que elas achavam que deveria ser feito para melhorar a situação, a resposta foi unânime: a prefeitura deveria limpar as ruas mais vezes.

Fiquei (e ainda estou) espantada por não ter ouvido nenhum comentário sequer responsabilizando as pessoas que jogaram o lixo sendo, afinal, as responsáveis diretas pela sujeira.

Este caso é só um exemplo que ilustra uma realidade mais ampla: o brasileiro médio não se sente responsável pelo cuidado com o que é público. Cuidar do que é coletivo pode parecer uma tarefa menor para alguns,  remetendo à cultura da nobreza cuja função era ser servida, e não de servir. Nos dedicamos às nossas casas e famílias, mas quando saímos da esfera privada esse mesmo zelo não acontece.

Por que esperamos tanto do governo e prefeituras, mesmo sabendo que não dão conta de toda a demanda? Por que custamos a compreender e cumprir nossa parte como cidadãos em vez de trazermos para nós a responsabilidade de cuidar do que é de todos? Por que nosso empenho pelo coletivo é tão fraco?

Afinal, onde foi que nós erramos?

Talvez sejamos parte do problema, mais do que pensamos. Você já reparou que, no Brasil, muitas vezes incentivamos uma postura individualista em nossas crianças, mesmo sem perceber?

Aqui vai um exemplo:

Na maior parte dos lares de classe média, existe a figura da empregada doméstica, seja diária ou esporádica. Esta pessoa é responsável por manter a casa limpa e organizada. Muitos pais, preocupados em estimular o senso de responsabilidade na família, dão uma cartada: “filho, a faxineira vai arrumar a casa toda. Mas o seu quarto é sua responsabilidade, então é você quem vai limpar”. A intenção é boa: dar um mínimo de estímulo para as crianças aprenderem a cuidar de seu espaço. Mas na prática, o valor que está sendo passado é: “você só precisa zelar pelo que é seu, pois no espaço coletivo sempre haverá alguém responsável por arrumar a sua bagunça”.

Principalmente na cultura européia, onde raramente há empregados domésticos, geralmente o ensinamento vem ao contrário: “o seu quarto, você deixa como quiser. Mas o restante da casa, trate de manter limpo e organizado. Afinal, ninguém é obrigado a conviver com sua sujeira”, é diferente não é?

“Ou você faz parte da solução, ou faz parte do problema.” A frase do militante negro Eldridge Cleaver se aplica à maioria das questões referentes ao comportamento cidadão.

De novo, aqui foi só um exemplo, mas ilustra perfeitamente como é criada nossa relação com o coletivo. Junte a isso o fato de vivermos no país da malandragem. Desde os tempos da colônia, vantagens individuais eram exaltadas em detrimento à noção de comunidade. A venda de títulos de nobreza refletia essa cultura da maneira mais oficial possível. O “você sabe com quem está falando” até hoje deixa claro ao interlocutor que a pessoa em questão exige um tratamento diferenciado simplesmente por ser quem é. A malandragem, uma característica vista com orgulho pelo povo brasileiro, nada mais é do que uma maneira poética de descrever um conjunto de atitudes de quem quer se dar bem ainda que prejudicando a terceiros.

Dessa forma, o espaço público no Brasil torna-se um espaço que não é de responsabilidade de ninguém. Ao contrário dos países desenvolvidos, em que todo patrimônio público é visto como de todo mundo, e portanto, zelado como tal. Essa visão brasileira da “terra de ninguém” se traduz em ruas sujas, rios poluídos, depredação e diferentes tipos de descaso. Como converter esse cenário para outro em que o coletivo é respeitado por todos?

Como estimular a cidadania em um ambiente sem consciência coletiva?

Primeiro, é importante considerar que o pensamento voltado para o coletivo é infinitamente mais complexo do que a consciência individual. Até uma criança é capaz de entender relações simples de causa e efeito que beneficiem a si mesma: “se eu ando essa distância a pé, me canso; mas se um adulto me leva no colo, o cansaço passa e se torna mais agradável percorrer o mesmo trajeto”.

Identificar benefícios coletivos, no entanto, requer uma visão sistêmica – um conhecimento bem mais amplo de causa e efeito entre diversos agentes interligados. Se vou para o trabalho de carro, chego mais rápido do que quando pego um ônibus. No entanto, se todos usassem o transporte público haveria menos carros na rua, consequentemente menos engarrafamento e, por fim, todos chegariam ainda mais rápido ao trabalho do que se fossem de carro. Aqui o raciocínio é bem mais complexo: é necessário calcular quantos carros seriam economizados, qual seria a velocidade média do ônibus em ruas sem engarrafamento e, principalmente: como convencer nossos concidadãos a trocarem o conforto do carro pelo benefício coletivo?

A resposta é mais simples do que parece: o esforço coletivo precisa trazer um benefício individual imediato. Essa é a lógica usada pela imensa maioria das políticas públicas. Foi assim na campanha pelo uso do GNV em relação à gasolina: todos foram informados de que o gás natural é menos prejudicial ao meio ambiente do que a gasolina, mas foi necessária uma campanha com descontos em impostos para que grande parte da população optasse pelo novo combustível. O metrô é menos poluente e mais eficiente que o transporte individual, mas o que de fato faz as pessoas deixarem seu carro em casa é o fato de que o metrô o levará mais rápido ao seu destino, já que não enfrenta engarrafamentos.

Como esse conceito se aplica às empresas?

De modo geral, é possível usar essa mesma lógica oferecendo benefícios a colaboradores, clientes e fornecedores para estimular determinadas atitudes. Mas essa não é a única forma de se estimular a cidadania: campanhas de conscientização, principalmente se dotadas de uma visão empática, tendem a ter um grande efeito mobilizador. Restringir as alternativas mais individualistas também costuma funcionar, desde que acompanhadas de campanhas de sensibilização. Aqui vão alguns exemplos:

  • Concessionárias de energia dão desconto aos clientes que optam por receber a conta em formato digital, em substituição ao boleto enviado por correios.
  • Em uma empresa, ao implantar a coleta seletiva, os colaboradores apoiaram verbalmente a causa, mas no dia a dia continuavam jogando lixo misturado na lixeira de suas mesas. A solução foi retirar as lixeiras individuais, obrigando os colaboradores a se levantarem para jogar o lixo nas lixeiras de coleta seletiva.
  • Para reduzir o consumo de copos plásticos, diversas empresas estão presenteando seus colaboradores com canecas ou copos reutilizáveis. Mais uma vez a iniciativa teve apoio, mas na prática a maior parte das pessoas se esquecia de usar a própria caneca. A solução foi retirar os copos descartáveis da área do café.

É importante notar, no entanto, que essas abordagens restritivas só tiveram sucesso porque vieram acompanhadas de campanhas de sensibilização para a causa. Caso contrário, podem gerar insatisfação e protestos.

Outras ideias:

  • Estimular o engajamento em atividades coletivas, como engajamento em ações voluntárias, oferecimento de carona para o trabalho, troca de talentos entre os colaboradores, dentre outras. Plataformas como o Portal de Voluntariado V2V são uma excelente forma de instigar e dar visibilidade a essas práticas.
  • Estimular a participação como cidadãos atuantes em Cidades Inteligentes.
  • Rever suas próprias atitudes do dia a dia. Veja algumas dicas aqui.

E você? Que iniciativas cidadãs já estimulou em sua empresa?

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