Seu Programa de Voluntariado está realmente contribuindo com a comunidade?

Por Flávio Seixas*

Nossas atitudes nos definem, para além das nossas palavras e vontades. Porém, quanto mais conscientes estamos das crenças que nos movem, e também daquilo que move os que estão ao nosso redor, maior a probabilidade de sermos assertivos e encontrarmos resultados em nossas ações.

Quando se trata de empreender intervenções sociais de qualquer natureza é imprescindível entender qual o nosso propósito, e também levar em conta as necessidades e potencialidades daqueles que estarão conosco nesta jornada, seja como beneficiários ou parceiros.

A atitude necessária para cruzar o limiar desta tomada de consciência é a abertura para o novo, onde suspendemos temporariamente nossas certezas, julgamentos, análises e nos concentramos em ouvir e entender aqueles que estão a nossa volta

Tomada de Consciência

O agente externo (que aqui chamaremos de voluntários de um programa de voluntariado corporativo) que deseja atuar transformando determinada realidade social, deve entender que o primeiro ato desta grande jornada é compreender que este é um processo de tomada de consciência, de aprendizados e de co-criação, ou seja, um processo de expansão do olhar em relação a si mesmo, em relação ao outro, e em relação ao cenário que se apresenta.

A atitude necessária para cruzar o limiar desta tomada de consciência é a abertura para o novo, onde suspendemos temporariamente nossas certezas, julgamentos, análises e nos concentramos em ouvir e entender aqueles que estão a nossa volta. Porém, o contrário disso tem sido muito mais popular: pessoas se reúnem em pequenos grupos e decidem o que fazer antes de compreender a realidade e cenário que receberá uma intervenção social.

Intervenção de voluntariado a priori

As organizações sociais estão mais acostumadas a receber intervenções alinhadas com este modelo, que aqui chamaremos de intervenção a priori, ou seja, onde o que vai ser realizado foi decidido antes, de acordo com alguma linha programática, orçamentária ou desejo pessoal e vocação dos voluntários ou da empresa.

Se uma parcela considerável das organizações sociais e voluntários tem se acostumado ao modelo a priori, seja devido a um recorte realizado pelas políticas públicas, cultura de caridade religiosa, programas de voluntariado e de investimento social privado no geral, quando pensamos em comunidades, a utilização deste modelo apresenta algumas preocupações.

Atenção às particularidades

As comunidades são formadas por diversos setores de uma determinada população, com suas dinâmicas e características próprias, inseridas em um contexto social, político e geográfico próprios e vivendo um tempo histórico determinado. Uma comunidade é uma conjunção de potencialidades, pressões e desafios das mais diferentes naturezas, tendo seus representantes clareza ou não sobre isso. Atuar neste cenário implica compreender um vórtice de forças muito maior, onde as organizações sociais estão inseridas e mesmo as empresas, governos e pessoas.

Se o modelo a priori apresenta de fato algumas facilidades, por já ter resolvido suas métricas e limites antes mesmo de iniciar uma intervenção, ele pode também levar a um fatalismo perigoso, de pensar o processo de desenvolvimento social como um cenário com dois atores principais: aqueles que entregam algum beneficio e aqueles que recebem algum beneficio, os beneficiários.

Voluntariado x Assistencialismo

Temos que estar atentos, porque esta visão pode levar ao assistencialismo e paternalismo, ou seja, a cultura de que um voluntário externo é que deve levar transformações e benefícios a comunidade. Aqui reside um jogo de forças muito sutil que fragiliza uma relação ainda não criada, o do detentor do saber e dos recursos e aquele que não detém saber e nem recursos. A longo prazo se estabelece a cultura de que o voluntário deve levar a transformação social, como messias, salvador e herói.

Portanto, tendo em vista a complexidade das comunidades e mesmo do cenário das organizações sociais, este artigo pretende traçar as linhas gerais de atuação para uma intervenção que mobilize, engaje e conecte todos os atores para que superem os desafios do contexto em que vivem e convivem. Para isso, vamos conhecer agora o modelo de intervenção social a posteriori.

Temos que estar atentos, porque esta visão pode levar ao assistencialismo e paternalismo, ou seja, a cultura de que um voluntário externo é que deve levar transformações e benefícios a comunidade.

Mergulhe mais no contexto em que atuará!

O modelo de voluntariado a posteriori

Os modelos a priori e a posteriori foram amplamente estudados por cientistas sociais, antropólogos e psicólogos comunitários em diversos territórios e comunidades pela América Latina. Ambos os conceitos foram apresentados e aprofundados em renomado artigo da pesquisadora Maria de Fátima Quintal de Freitas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem norteado trabalhos comunitários por todo o Brasil.

No modelo a posteriori o papel do voluntário (agente externo) é descolado, e ao invés de se tornar um interventor social, o que ocorre é a sua inserção social na comunidade. A inserção exige do agente externo um desejo de conhecer a realidade social, seus atores, organizações, potencialidades, aspectos sociais e políticos. A vontade que norteará sua ação deve ser a de compreender quais são os saberes e recursos presentes na comunidade, porém ainda não mapeados.

Aqui a tomada de consciência é imprescindível, pois antes de se definirem as métricas e linhas de atuação, o voluntário deverá travar contato e diálogo com uma multiplicidade de atores: agentes públicos, líderes comunitários, líderes religiosos, líderes políticos, representantes de organizações sociais e empresas locais. Isso levará o voluntariado a um momento inicial de incerteza que deverá ser superado na medida em que estes atores comunitários compreendem a proposta de que algo será criado, desenvolvido, planejado e executado com a participação da comunidade. Este alinhamento inicial de expectativas é de extrema importância.

A vontade que norteará sua ação deve ser a de compreender quais são os saberes e recursos presentes na comunidade, porém ainda não mapeados.

Protagonismo das comunidades

O papel dos atores da comunidade e organizações sociais intermediárias também será deslocado, de beneficiário da intervenção para parceiro e protagonista do processo social. Os objetivos serão desenhados dentro de um processo decisório participativo, com relações horizontais estabelecidas entre todos os atores para discussão, análise e definição sobre as problemáticas a serem consideradas e as possibilidades de resolução e enfrentamento das mesmas.

Para a atuação do voluntário estar alinhada ao modelo a posteriori, deve respeitar dois aspectos básicos:

  1. O primeiro é de que as necessidades da comunidade é que devem guiar os caminhos para a realização do trabalho.
  2. Em segundo que o trabalho implique a construção conjunta de alternativas para que a população assuma seu cotidiano, fomentando relações de confiança e desenvolvendo uma consciência crítica.

Porém, como realizar ações práticas para iniciar uma atuação alinhada ao modelo a posteriori?

Os caminhos possíveis são vários:

  • entrevistas realizadas de maneira individual ou coletiva;
  • conversas informais em espaços públicos;
  • visitar organizações locais;
  • eventos e festividades da comunidade;
  • registrar os acontecimentos e compartilhar com o grupo de voluntários em reuniões;
  • leitura de documentos em jornais locais, seja impresso ou via redes sociais;
  • identificação de necessidades e também dos modos alternativos de enfrentamento que foram adotados;
  • discussão conjunta, com a comunidade, em grupos ou comitês focais, mobilizados para esta finalidade.

Sobre este último item, da criação de grupos focais e comitês, sugere-se alguns cuidados iniciais. Quando lidamos com grupos é necessário enfrentar a dificuldade derivada de suas caraterísticas naturais, como a variação na quantidade e composição de seus membros, avanços e retrocessos existentes nas diversas reuniões grupais, distanciamento que vai sendo criado entre as lideranças e os demais, tentativa do estabelecimento de hierarquias internas e fontes de poder diversificados que se alteram continuamente, e dificuldades e distorções comunicacionais acontecidas nas reuniões.

Voluntário facilitador

Para lidar com estas características naturais, é importante que o programa de voluntariado cultive nos voluntários as habilidades de facilitador. Para o autor, consultor e estudioso Allan Kaplan, o profissional do desenvolvimento social deve ser um artista do invisível.

Isto significa compreender que os processos de desenvolvimento social são contínuos e autônomos, acontecem independente de um voluntário ou integrante interno a comunidade, apesar de poder sofrer influências diversas dos mesmos. Também, que o voluntário, facilitador, pretende reunir e criar um campo de diálogo e cuidado onde as problemáticas serão tornadas tangíveis e visíveis.

E por último e não menos importante, que o voluntário facilitador vai acompanhar o processo temporariamente, até que o grupo ou comitê se torne consciente de suas capacidades para intervir nos desafios de sua própria comunidade. Tendo em vista as considerações sobre os aspectos naturais dos grupos, é emergente o surgimento de cada vez mais voluntários com desejo e capacidades para atuar como facilitadores de grupos e comitês para o desenvolvimento social.

O modelo TAZ

Porém, como ganhar escala com o modelo a posteriori, sendo que pressupõe claramente uma dedicação maior por parte do voluntário, que antes de atuar deseja conhecer a realidade social da comunidade?

Uma das respostas está no modelo do autor e estudioso Hakin Bey, que nos apresenta um conceito revolucionário, o TAZ (Temporary Autonomous Zone) ou em português, as Zonas Autônomas Temporárias.

O formato TAZ de organização tem como princípio básico proporcionar um espaço de liberdade que seja real e efetivo. Um espaço de liberdade real e efetivo considera uma série de benefícios aos participantes, como aumento de consciência crítica, empoderamento, saber trabalhar com a diversidade, co-criação, solidariedade e autodesenvolvimento.

Em seu próprio nome, a TAZ traz o antídoto contra o modelo de atuação a priori, verticalizado e hierárquico, trazendo o caminho para a constituição de um grupo que seja base para a atuação uma atuação a posteriori, horizontalizada e sem hierarquias.

Em relação a Zona, quer se dizer o local, espaço, superfície, geografia, comunidade onde o grupo será criado, isso deve ser considerado. Autônoma, porque é uma postura, modo de se relacionar, que não se deixa capturar por ideologias e crenças políticas e religiosas ou de quaisquer naturezas que podem travar o andamento do grupo. E Temporária, que é a maneira de se inserir no tempo, de se entender mais como um processo em formato de ciclo, tudo na natureza tem um ciclo de germinação, nascimento, maturidade e morte, que é a destruição criativa que pode inclusive servir como insumo de uma nova configuração ou fase para o trabalho.

A organização neste formato vale tanto para grupos e comitês formados nas comunidades como também para grupos de agentes externos, como os voluntários, profissionais do desenvolvimento social e facilitadores em estruturas educacionais, políticas e corporativas. Seu formato centrado na autonomia permite que se ganhe escala em projetos de diversas naturezas, abrindo mão de uma percepção de controle e focando em resultados mais criativos e inovadores.

Atualmente muitos programas de voluntariado, de mobilização social, desenvolvimento comunitário, desenvolvimento de iniciativas educacionais, negócios de impacto social e startups tem buscado este modelo de atuação que considera e convida um público-alvo, população, beneficiários, parceiros, para construção conjunta de iniciativas, mediadas por valores que são compartilhados com todos.

E você, o que acha de formar uma TAZ e atuar no modelo a posteriori? Deixe seus comentários!

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O autor

Psicólogo, facilitador organizacional pelo programa Germinar, especialização em Ciências Sociais  pela UFMG. Possui extensão em Psicologia Social (USP) e Psicodrama (Sedes) e Especialização (em curso) em Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorealização (PUC/RS) e Aprimoramento (em curso) pela Jornada da Liderança pela Antroposofia (EcoSocial/LUMO). Atuou com o desenvolvimento de oficinas no Brasil, Argentina, Portugal e Moçambique, e com empresas como Camargo Corrêa, Santista Têxtil, InterCement, Alpargatas, Instituto C&A e Instituto BRF. Atualmente é sócio-diretor da iniciativa Awá Desperta – www.awadesperta.com

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Referências bibliográficas

BEY, Hakim. TAZ – Zona Autônoma Temporária. São Paulo: Editora Conrad, 2001.

FREITAS, Maria de Fatima Quintal de. Inserção na comunidade e análise de necessidades: reflexões sobre a prática do psicólogo. Psicologia, Reflexão e Crítica [online]. 1998, vol.11, n.1, pp.175-189.

KAPLAN, Allan. O processo social e o profissional de desenvolvimento. Artistas do Invisível (Série Tornamento/ Kaplan, Allan; tradução de Ana Paula Pacheco Chaves Giorgi. – São Paulo: Instituto Fonte para o Desenvolvimento Social e Editora Fundação Peirópolis.

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