Voluntariado e transformação: saiba como gerar mais impacto com seu Programa

Por Patricia Focchi*

 

“Os padrões do passado tranquilo

são inadequados para o presente tempestuoso.

Como a nossa situação é nova,

temos que pensar de uma maneira nova

e agir de maneira renovada.”

Abraham Lincoln (1809/1865)

 

Durante alguns anos, estive na gerência de projetos sociais de grandes empresas e em organizações da sociedade civil, tanto como colaboradora ou voluntária, e pude perceber que nos dois cenários os Programas de Voluntariado podem ser cada vez mais estratégicos e impactantes.

Porém a realidade é muito desafiadora porque necessitamos nos reinventar e estar atentos às tendências globais, à diversidade de gerações, às reais necessidades das comunidades onde atuamos, além de termos consciência de quais problemas queremos resolver.

Na sua grande maioria, as empresas estão com seus programas consolidados, mas não conseguem medir o impacto das ações. São poucas que possuem avaliações e medem o impacto.

As ações sociais, na sua maioria, são mais pontuais e assistencialistas, porque resolvem apenas parte dos problemas. Em muitos programas, o ponto de partida é escolher um problema “menos complexo” e que possa ser trabalhado em uma única atividade.

Percebemos nos últimos anos que as empresas aproximaram a estratégia do Voluntariado ao “core business”. No ultimo senso do CBVE em 2016, 81,25% das empresas respondentes indicam que as ações voluntárias desenvolvidas estão alinhadas aos objetivos estratégicos das empresas, o que acompanha tendências também do setor de Responsabilidade Social, indicado em outros estudos como  o Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC).

Os projetos sociais estão cada vez mais atrelados aos negócios, o que é extremamente importante para a marca que o patrocina. Contudo é sempre importante refletirmos:

– O que de fato entregamos como projeto social?  A necessidade da comunidade onde eu estou inserido é a mesma da causa que apoio?

– Eu busco uma Organização Social para apoiar que tenha a mesma causa que eu apoio?

– A empresa deixa de apoiar um projeto social, ou uma organização porque não é o seu foco de atuação?

– A ação de voluntariado tem real impacto na vida das pessoas dentro e fora das empresas?

– A Causa que a empresa apoia é a mesma causa que o colaborador quer apoiar?

São pontos extremamente relevantes que precisam ser pensados na hora de estruturar as ações de voluntariado, uma vez que estamos pensando em ações de voluntariado.

Os projetos sociais estão cada vez mais atrelados aos negócios, o que é extremamente importante para a marca que o patrocina. Contudo é sempre importante refletirmos: O que de fato entregamos como projeto social?

Projetos Sociais mais eficientes

No artigo da Natália Kelbert, ela menciona metodologias que apoiam na construção de projetos mais eficientes e de alto impacto. Um delas é  o Design Centrado no Ser Humano.

Embora muitos gestores de programas de voluntariado considerem este método complexo e difícil, eu diria que se faz necessário à aplicabilidade se de fato queremos que o impacto esteja no centro de cada projeto social que iremos realizar.

É possível desenhar projetos e ações que estejam além de reformas e doações pontuais. Precisamos aprofundar os conhecimentos, e mergulharmos nas metodologias de inovação para construir o planejamento coletivamente, integrando voluntários, empresas e comunidades, buscando um entendimento muito mais profundo da sociedade e também das necessidades e expectativas de cada envolvido.

Somos educados para “resolvermos problemas” e criamos infinitas soluções sem antes entendermos as reais necessidades.

Alguns exemplos: recentemente no incidente de Brumadinho, as empresas e Organizações da Sociedade Civil rapidamente iniciaram suas campanhas de arrecadações de água e roupas.  Porém a real necessidade naquele momento era apoio emocional para as famílias e sobreviventes, materiais de higiene e limpeza.   Mesmo depois de sinalizado essas necessidades, algumas empresas continuaram com suas ações de arrecadações de roupas, sem maiores preocupações.

O apoio e a mobilização são sempre importantes, desde que possamos desconsiderar a premissa de sabemos o que é melhor para o outro.  Não saberemos enquanto não aprendermos a perguntar.

Os problemas sociais são muito complexos, e exigem método e organização. A metodologia Centrada no Ser Humano é fácil, e se bem aplicada ajudará os voluntários a mapearem as reais necessidades e não partirem para as soluções que desencadeiam em ações sem impacto.

Somos educados para “resolvermos problemas” e criamos infinitas soluções sem antes entendermos as reais necessidades.

As metodologias de inovação 

A inovação social é um dos métodos de resolução de problemas complexos, que coloca foco no ser humano de forma muito prática e dinâmica.

Esses problemas mal definidos, que ocorrem em contextos sociais, não podem mais ser resolvidos apenas utilizando os métodos tradicionais de solução de problemas. Entender profundamente as necessidades das pessoas é decisivo para os resultados que serão gerados nos projetos de inovação social.  

Não é fácil, confesso!

Não basta fazer um curso ou ler um livro para sairmos aplicando, também não basta usar post-its coloridos e falar dos temas em reuniões com os voluntários, ou sair perguntando livremente nas organizações qual é a sua necessidade.

Usar ferramentas de inovação é uma decisão estratégica e de extrema importância. Buscar ajuda e apoio de áreas da empresa que já trabalhem com inovação ou consultores especializados pode ser uma ótima alternativa.

Usar ferramentas de inovação é uma decisão estratégica e de extrema importância. Buscar ajuda e apoio de áreas da empresa que já trabalhem com inovação ou consultores especializados pode ser uma ótima alternativa.

De olho nas necessidades reais 

Muitas empresas decidiram mergulhar de cabeça nas metodologias de inovação, nos métodos ágeis, testar os resultados que elas oferecem.  Com isso percebemos grandes avanços na qualidade dos projetos e nas soluções de problemas a partir de necessidades reais dos clientes.

Nos Programas de Voluntariado Empresarial temos três grandes clientes: a Empresa, o Colaborador e a Comunidade (veja uma matéria completa sobre isso nesse link). Qualquer programa de voluntariado empresarial para ser bem sucedido deve atentar para as reais necessidades desses três principais atores.

Temos é que ouvir exaustivamente os clientes, construirmos estratégias e soluções a partir dessas necessidades, aprendendo a fazer as perguntas certas, a identificar oportunidades e a ouvir os diferentes públicos.

Os desafios são diários.

Estarmos atentos às mudanças e entendermos que, por mais que exista passo a passo para a implementação de um Programa de Voluntariado, ele certamente precisará de releituras e inovação.

Por muitos anos ouvi de muitos gestores que Programa de Voluntariado é um “evento”.

Negativo!

Programa de Voluntariado é mais que um “evento” ou uma “ação pontual”, ele é estratégico e de alto impacto, de alta importância para os públicos atendidos, desde que você mensure indicadores qualitativos e de impacto.

Faça um exercício com sua equipe e reflita sobre seus indicadores.  São quantitativos ou qualitativos?

Você mensura número de beneficiários, número de voluntários ativos, número de horas, número de ações, total do valor investido, etc ? Avalie por que não realizam pesquisas qualitativas com os públicos atendidos.

Reflita sobre as perguntas:

  • Por que sua empresa tem um Programa de Voluntariado?
  • Sua empresa incentiva à participação social independente da causa que apoia?
  • Qual o impacto que a ação de voluntariado empresarial quer causar no seu colaborador? Por quê?
  • Qual o legado que sua empresa quer deixar na comunidade que atua? Por quê?
  • Os voluntários da sua empresa são ativos socialmente durante o ano? Ou eles só participam das ações que a empresa oferece? Por quê?
  • O programa de voluntariado empresarial permite que o seu colaborador escolha a ação social que ele quer fazer ao longo do ano durante o seu horário de trabalho?

João Kepler ressalta a necessidade de nos reinventarmos,

o século XXI inquestionavelmente trouxe mudanças significativas para a sociedade como um todo. Nos últimos anos foi preciso “reaprender” a comprar, vender, aprender e inserir novas formas de comunicação, de marketing e até como usar a tecnologia a seu favor. O fato é: estamos na era da valorização dos bens intangíveis e do capital intelectual e de novos modelos de negócios. ”¹.

Precisamos nos reinventar todos os dias e termos a humildade de admitirmos que não sabemos tudo e avaliarmos todos os porquês.

Como dizia Sócrates “Só sei que nada sei”.

Você já ouviu falar da competência Flexibilidade Cognitiva?

Marcelo Veras descreve as Dez Competências apontadas pelo Fórum Econômico Mundial como as mais demandadas². Flexibilidade Cognitiva é uma delas, a única técnica, e em outras palavras significa “ter a capacidade de aprender o que tiver que aprender na hora que tiver que aprender”.

Segundo ele, o mundo em que vivemos e o futuro nos trazem contínuas transformações; o que é verdade hoje pode não ser amanhã. Portanto o conhecimento tem prazo de validade e o profissional do futuro deve ser capaz de se renovar; aprender coisas novas e, se necessário, jogar no lixo tudo o que sabe.

Será que não é esse o momento de reavaliarmos os Programas?

Os Programas de Voluntariado continuam frágeis, alguns ainda com ações globais em um único dia do ano, com mutirões de reforma, sem doarem seu capital intelectual que certamente é muito mais impactante e sustentável para os beneficiários.

Outros programas atuam com calendários pontuais, com ações especificas de arrecadações, e a maioria sem investimento social privado.

Sendo assim, novos olhares e novas estratégias de atuação sobre os Programas de Voluntariado são fundamentais para que tenhamos ações sociais e projetos de voluntariado com propósito e impacto.

Renovar-se é parte do processo, olhar para seu programa e entender que para ser efetivo precisa ter impacto e atender minimamente as reais necessidades da comunidade onde está inserido.

Para isso precisamos reaprender, mudar o mindset, buscar conhecer novos métodos para obter-se programas de maior impacto. As mudanças ocorrem quando testamos, erramos, aprendemos, corrigimos e tentamos de novo.

Algumas dicas:

  • Reveja seus indicadores e classifique-os como: indicadores de resultados, qualitativos e de impacto.
  • Crie novos indicadores, preferencialmente de impacto.
  • Avalie se o programa de voluntariado tem clareza dos seus objetivos.
  • Entenda o perfil dos seus clientes (interno e externo). Pode ser por meio de uma pesquisa de interesse em voluntariar, por entrevistas qualitativas, ou por metodologias de inovação.
  • Avalie qual é o impacto e a marca que sua empresa quer deixar na comunidade onde atua.
  • Reflita constantemente, sobre as experiências dos seus clientes, e mude o que precisa ser melhorado

Fontes:

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*Patricia Focchi tem atuação de 13 anos em Institutos e Fundações Empresarias em Programas de Voluntariado e Projetos Sociais em comunidades vulneráveis. Vinte anos de experiência na área  de Recursos Humanos vivenciados em empresas de grande porte com atuação nos setores de  Diversidade e Inclusão, Treinamento e Desenvolvimento, Recrutamento e Seleção e Business Partner . Psicóloga com especialização clínica e organizacional, pela Universidade Mackenzie, MBA em Gestão Empresarial, Especialização em Responsabilidade Social e Terceiro Setor  FIA – fundação Instituto de Administração, Pós-Graduada Gerenciamento Estratégico em Recursos Humanos  – FMU e  Formação Holística de Base UNIPAZ – Universidade Holística. Co autora do Guia de Design Thinking _ Aplicado em Projetos Sociais e autora do Manual de Seleção por Competência e dicas para contratação de Pessoas com Deficiência.

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