Censo CBVE 2018 – Uma fotografia do Voluntariado Empresarial no Brasil

O Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial lançou no segundo semestre de 2019 o Censo 2018.

Com o propósito de fomentar e apresentar o voluntariado empresarial no Brasil, o CBVE, de forma bianual, produz o seu Censo, e eu dei uma olhadinha na edição recém lançada e separei algumas informações. Confira nesse post.

Os Censos do CBVE

O Censo CBVE representa uma visão do voluntariado empresarial com base nas entidades que compõe esse Conselho, de maneira a formar “uma rede que reúne empresas, confederações, institutos e fundações empresariais. É independente, apartidário que, respeitando a diversidade, dirige suas atividades para a promoção e o desenvolvimento do voluntariado empresarial”.

Ao todo, são 17 associados, organizações de grande porte, sendo dessas 41% tem abrangência internacional. As demais possuem operação nacional e local, dentre elas empresas de energia, do varejo, bancos, indústrias e empresas de serviços e suas instituições/fundações.

Até o momento foram realizados os Censos dos períodos de 2015 e 2016, a partir de quando o grupo entendeu que deveria ser fixada uma periodicidade bianual, sendo apresentado agora o de 2018 quando a secretaria executiva está ao cargo do CIEDS, que também comandou a produção desse relatório.

(Os Censos de 2015, 2016 e 2018 estão disponíveis no site do CBVE).

O Censo 2018

Estrutura do voluntariado nas empresas

Áreas promotoras do voluntariado 

Os últimos 3 censos demonstram que uma área exclusiva para desenvolver as estratégias de Responsabilidade Social Corporativa e Sustentabilidade no organograma das empresas é quem lidera desde 2015 como as responsáveis por gerir o maior volume de programas de voluntariado. Em segundo lugar permanece a área de Recursos Humanos como sponsor desses projetos.

Fiquei curioso com o número de Institutos e Fundações, que no primeiro censo nem apareciam no gráfico, versus uma tendência que era cogitada na ocasião – em meados de 2015 – de consolidação das ações sociais dentro das estruturas internas das empresas e não em seus ‘braços sociais’.

Na altura essa discussão se dava devido a uma diretriz que se fortalecia – e se fortaleceu – do alinhamento com o negócio, e fica aí uma questão para ser investigada para sabermos se daí temos alguma conclusão interessante.

De imediato a hipótese que me ocorre é a necessidade de as empresas navegarem mais ‘leves’ no período de crise que se iniciou, delegando às entidades parceiras – ainda que constituintes do seu grupo corporativo – as ações sociais, dentre elas, o voluntariado.

Nunca ficou clara qual a estrutura mais vantajosa: senão que depende dos objetivos do próprio voluntariado dentro da estratégia empresarial.

Depreendendo que um projeto de voluntariado que tenha como objetivos em si mesmo (o voluntariado como causa) e a mobilização, envolvimento e engajamento de seus voluntários, o fato de estar nas áreas de RH facilita muito, e quando o objetivo do programa de voluntariado é um conjunto de resultados sociais com algum impacto, estar em institutos e numa área específica de investimento social privado torna a operação e o alinhamento mais fácil.

Uma outra observação que me ocorreu é que essa concentração em uma área própria para RSS é característica dos grandes grupos empresariais e grandes empresas. Em geral, das médias para as pequenas, as funções são acumuladas de uma maneira menos estruturada.

Orçamento

No Censo de 2015, 95% das empresas disseram possuir um orçamento próprio para a gestão do voluntariado e em 2018 esse número cai para 75%.

E sinceramente se a sobrevivência dos projetos de responsabilidade social dependem necessariamente da prosperidade econômica, vivemos um cenário político e macroeconômico um pouco difícil de estabelecer previsões, se não nos apegarmos ao otimismo e à necessidade ainda maior de unir as pessoas em prol das necessidades sociais nesses momentos.

Nesse sentido, o voluntariado é uma ferramenta, e a empresa precisa se manter forte como cidadã promotora de participação social e democracia.

Plataformas de Gestão

“A utilização de sistemas específicos de gestão do voluntariado tem se mantido como um componente de destaque entre a grande maioria das empresas participantes da pesquisa. A plataforma de gestão de ações de voluntariado V2V aparece como a mais utilizada pelo Conselho desde o primeiro Censo, realizado em 2015”.

Volume de voluntários e horas

Número de voluntários

50% das associadas responderam que a sua média anual de voluntários atuantes é de 100 a 1.000 voluntários. Essa média aumentou 6,25% em comparação aos 43,75% do Censo 2016 e uma redução aconteceu naquelas empresas que divulgavam um número superior a 5 e a 10 mil voluntários.

Na minha análise uma apuração balanceada e padronizada deveria ser oferecidas às empresas para estabelecer uma base de comparação de número de voluntários.

Ainda não é consenso no voluntariado empresarial do que representa uma unidade de voluntário: se é um cidadão que doou uma caixa de leite, clicou em um link, fez uma ação pontual de infraestrutura, ministrou uma oficina em módulos durante 6 meses ou acompanhou uma entidade ou uma comunidade durante um ano inteiro.

Sem demérito de nenhuma das modalidades acima, fica aí a ideia de promover uma lógica de contabilização que permita uma comparação de 1 para 1, sem que os relatórios, reportes e power points estejam a mercê de uma liberalidade de critérios que não foram discutidos, ou mesmo validados.

Número de horas voluntárias

Assumindo que o número de horas pode ser tanto uma contrapartida do próprio voluntário quanto de horas cedidas pela empresa, no censo 2018 do CBVE a concentração maior estava no fato de que “40% das entidades associadas ao CBVE dedicavam mais de 48 horas ao voluntariado, dentro da média anual de horas.

Neste novo ciclo, a maior concentração, ou seja 43,75% das entidades responderam que dedicaram em média somente até 12 horas ao voluntariado”.

E dessas horas, de 2015 a 2018 a maior parte foi contada fora do horário comercial, uma doação de tempo pessoal do colaborador para o voluntariado empresarial, ou para as causas em questão. Há quem seja contra, eu sou a favor da co-participação.

De forma consoante, “surge neste ciclo (2018) a modalidade mista, ou seja, a realização das atividades “dentro e fora” do horário de trabalho. Esta modalidade alcançou o maior índice, 56,25%, sobrepondo-se a modalidade exclusiva de somente “fora do horário comercial”.

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Formas de agir

O número de empresas que se estruturam em comitês gestores permanece numa média entre 71% a 63%, nesse decréscimo de 10% não é possível avaliar o motivo de forma significativa.

Um mero trânsito de empresas que atuam em territórios maiores para uma atuação em menor extensão geográfica, ou mesmo uma troca de ações em âmbito comunitário para participar com entidades específicas podem responder essa questão.

Aliás, o número de empresas que realizam suas ações em parceria com instituições cresceu de 75% em 2016 para 93$ em 2018, sendo em sua maioria ONGS, seguidas de escolas e governos.

A autonomia de atuação em comitês depende essencialmente de capacitação, e da amostra presente no Censo CBVE 93% das empresas dizem dar capacitações aos voluntários e 74% dão formações para as organizações.

Áreas de atuação

“Seguindo a tendência dos dados dos 2 censos anteriores, as áreas de Educação e Geração de Renda seguem sendo aas mais escolhidas para a realização das ações de voluntariado”.

E como isso é refletido nos ODS

Avaliação

Número de pessoas beneficiadas

“É muito variado o número de pessoas beneficiadas por entidades nas ações voluntárias, dada a grande diversidade estrutural e de segmentos dos associados ao CBVE, porém, pelo exercício deste Censo, chegamos a um total aproximado de 320.893 beneficiados, contra 287.825 contabilizados em 2016”.

E para o número de beneficiados o racional é um pouco mais complexo por entrar em caráter de subjetividade.

Um ponto de vista pessoal é que a visibilidade por questões quantitativas seja diminuída em função de transformações mais substanciais e concretas na vida daqueles que recebem o trabalho voluntário.

Indicadores de avaliação

64% das entidades afirmaram possuir indicadores e foram identificados 16.

São eles:

• Voluntários ativos únicos;

• Horas de voluntariado;

• Beneficiários diretos;

• Pessoas com deficiência beneficiadas;

• Participação em voluntariado digital;

• Pesquisa de satisfação;

• Público beneficiado;

• Número de voluntários atuantes;

• Número de beneficiados;

• % de voluntários inscritos, capacitados e atuantes;

• % de voluntários que continuam no programa de um ano para o outro;

• % de voluntários ativos que declaram que se sentem engajados em continuar o voluntariado;

• % voluntários satisfeitos com o projeto;

• Horas doadas;

• ODS trabalhadas;

• Objetivo pré-determinado alcançado ou não.

(foto de indicadores)

Benefícios do programa para a instituição

Os benefícios para as empresas foram elencados na seguinte ordem:

  1. Desenvolvimento de competências e habilidades dos funcionários
  2. Melhoria do clima organizacional
  3. Fortalecimento do engajamento cívico dos funcionários
  4. Maior identificação e pertencimento a instituição
  5. Aumento do engajamento de funcionários
  6. Melhoria socioambiental nas comunidades beneficiadas
  7. Fortalecimento da imagem institucional
  8. Maior interação interna dos funcionários

Com a percepção muito focada nos ganhos internos para a empresa, o que responde para as empresas associadas um pouco da pergunta sobre a área ideal (no organograma) para localização de um programa. Nas empresas pesquisadas, as respostas estão mais focadas nos benefícios relacionados ao RH (ou gestão de pessoas) e para os colaboradores.

De uma forma também muito potente, está o engajamento cívico dos colaboradores em ações sociais (16%) e isso em minha trajetória como gestor de projetos de voluntariado sempre foi marcante: as pessoas querem se engajar mais, mas em geral não sabem como e onde. E o voluntariado empresarial tem imenso potencial de congregar essa vontade com competência e gestão.

“Em tempos de processos de transformação da sociedade, o voluntariado é uma potente ferramenta de engajamento cívico para a transformação social”.

Parabéns ao trabalho realizado pelo CBVE !

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Bruno Barcelos

-Treze anos de significativa experiência nas áreas de Sustentabilidade, Investimento Social Privado, e Voluntariado, com foco em planejamento, gestão, monitoramento, e avaliação de iniciativas privadas e públicas. Bem como experiência em gestão (estratégica – operacional) empresas e em ONGs e articulação entre parceiros dos setores diversos. Amplo experiência no desenvolvimento de assessorias, capacitações e palestras nos temas acima citados, adicionalmente às expertises em prospecção, atendimento, negociação, venda, e na criação/customização de soluções para empresas de grande, pequeno e médio porte nos temas correlatos.

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