O voluntariado pode ajudar a reduzir custos previdenciários da sua empresa?

Sabemos que o voluntariado empresarial traz benefícios para todos os envolvidos: as comunidades, os voluntários e as próprias empresas.  Neste post, quero explorar como a saúde dos funcionários pode ser impactada pela atividade voluntária e quais oportunidades gestores podem ter ao usar tais impactos para fortalecer seus programas de voluntariado empresarial.

Falando de benefícios

Os benefícios do altruísmo – tão claros para quem o pratica – têm sido, cada vez mais, reconhecidos pela ciência.  Um estudo comandado pelo neurocientista brasileiro Jorge Moll Neto, pesquisador dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, mostrou que fazer uma boa ação é biologicamente prazeroso, assim como comer chocolate, fazer sexo, ganhar dinheiro ou consumir drogas.  Segundo a pesquisa, ao fazerem o bem, as pessoas acionam o sistema de recompensa no cérebro – o mesmo que se acende em situações de prazer.

Publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), esse estudo submeteu indivíduos à ressonância magnética funcional. Enquanto estavam monitorados, deveriam decidir o que fazer com os US$ 128 que haviam recebido pouco antes: guardar a quantia para si ou doá-la para alguma instituição filantrópica. Em média, os participantes doaram metade do valor.  

De acordo com a ressonância, a doação ativava o sistema de recompensa e outra parte do cérebro, o córtex subgenual, relacionado às ligações de longo prazo entre as pessoas. Só de pensar em fazer o bem, os participantes da pesquisa liberavam uma carga de dopamina (neurotransmissor envolvido na sensação de bem-estar).

Outros estudos também apontam que ser voluntário pode trazer outros benefícios à saúde: um estudo realizado pela Unitedhealthcare e VolunteerMatch, com 2.705 voluntários com 18 anos ou mais, 75% afirmaram que se sentiam fisicamente mais saudáveis, 79% reportaram menores níveis de stress e 88% reportaram melhoria de humor.  

Uma pesquisa clínica mais robusta, que estudou 64.000 participantes maiores de 65 anos ao longo de 12 anos, descobriu que a atividade voluntária retarda o declínio cognitivo nesta em pessoas mais velhas.

Como vimos, o voluntariado pode melhorar a vida, não só dos beneficiários das atividades voluntárias, mas também dos próprios voluntários.  Ou seja, ganham os indivíduos e suas comunidades.

“Como vimos, o voluntariado pode melhorar a vida, não só dos beneficiários das atividades voluntárias, mas também dos próprios voluntários.  Ou seja, ganham os indivíduos e suas comunidades”.

Pensemos agora: como isso pode afetar positivamente as empresas que promovem programas de voluntariado?

Sabemos que a rotina de trabalho nas grandes cidades pode ser extenuante. Problemas como falta de motivação, tristeza, mudanças de humor e transtornos neuróticos são cada vez mais comuns e afetam profundamente a qualidade de vida do trabalhador.  

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é possível que em futuro próximo, as doenças relacionadas à saúde mental, como depressão, por exemplo, sejam a principal causa de afastamento no ambiente de trabalho.

Em 2015, o IBGE, em parceria com o Ministério da Saúde, fez uma pesquisa que apontou que 14 milhões de brasileiros faltaram ao trabalho nas semanas anteriores à realização da pesquisa, o correspondente a 7% da população do país.  O absenteísmo traz prejuízos para o funcionário e para a empresa.

Segundo o Ministério do Trabalho, mais de 10 bilhões de reais são gastos anualmente pelas empresas com encargos previdenciários, prejudicando assim seus resultados.  Tais custos cobrados das empresas são calculados com base no histórico da companhia.

“Quanto mais funcionários se afastam, mais alto fica o imposto. O imposto pode se reduzir ou dobrar de valor. O bem-estar do trabalhador já é ganho suficiente, mas pode haver também um ganho financeiro para o empresário”, afirma Julio Miclos, gerente de saúde ocupacional, em entrevista dada à Revista Exame sobre o tema.

“Quanto mais funcionários se afastam, mais alto fica o imposto. O imposto pode se reduzir ou dobrar de valor. O bem-estar do trabalhador já é ganho suficiente, mas pode haver também um ganho financeiro para o empresário”

É um mito pensar que apenas empresas que envolvam atividades de risco físico do trabalhador estejam expostas a tais encargos previdenciários.  Para se ter uma ideia, as atividades econômicas campeãs em afastamentos previdenciários e acidentários, são os setores de bancos múltiplos (com carteira comercial), transporte rodoviário com carga, construção civil, administração pública e atividades hospitalares.  

Então, como um gestor de voluntariado empresarial pode usar estas informações para fortalecer seu programa internamente?  

Se sua empresa não tem ainda um programa de voluntariado empresarial, você pode utilizar os argumentos acima em seu processo de convencimento de sua liderança (pode até juntá-los com as informações deste infográfico).  

Agora, se sua empresa já tem um programa de voluntariado, há aqui uma grande oportunidade: que tal levantar informações junto ao RH, para saber se seus voluntários têm menor incidência de absenteísmo e acidentes de trabalho que a média dos funcionários da empresa?  

Seria interessante saber se essa correlação seria favorável ao programa de voluntariado (eu seria capaz de apostar que sim). Caso positivo, estes dados podem lhe dar até um indicador financeiro de quanto um maior engajamento dos funcionários em seu programa poderia trazer de economia REAL para a empresa, melhorando seu desempenho financeiro, na última linha.

Particularmente, em mais de 20 anos tratando deste tema, nunca vi um indicador de maior potencial de convencimento interno para o fortalecimento de um programa de voluntariado empresarial do que este (se os dados realmente mostrarem isso).  Caso você queira fazer um estudo neste sentido em sua empresa e precise de alguma ajuda, por favor, me procure, pois confesso que estou curioso para ver os resultados de tal levantamento. 😉

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*Bruno Ayres, administrador com mestrado em Ciência da Informação pelo IBICT / UFRJ. É co-fundador e Presidente do V2V.net. Com 18 anos de experiência no desenvolvimento de ferramentas de Internet para promoção do voluntariado em empresas e organizações da sociedade civil, o V2V tornou-se uma referência mundial no tema, tendo sido premiado no Brasil e no exterior.

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