6 atributos essenciais para um Programa de Voluntariado transformador

Todos os anos comemoramos essa data tão especial para o campo do voluntariado internacional. 05 de dezembro foi instituída pela ONU e nos faz reconhecer a importância da mobilização social civil em prol do desenvolvimento sustentável global.

O relatório – O Estado do Voluntariado no Mundo de 2018 demonstra inclusive que as comunidades mais resilientes, no cenário internacional, são aquelas com elevada participação social informal. Isso significa que as empresas que conseguirem organizar essas pessoas dentro e fora do seu domínio, acabarão por contribuir mais com o fortalecimento das localidades em que operam.

Acontece que, conforme temos demonstrado durante os anos de posts desse blog, a intervenção das empresas por meio dos seus programas de voluntariado empresarial podem ser mais ou menos transformadoras. A grande maioria, em geral, tem sido pontual com resultados mais efêmeros.

Outras conseguem fugir à regra e desenvolver projetos mais estruturados e transformadores.

Em comemoração ao Dia Internacional do Voluntariado de 2019, resolvi partilhar seis características que uma iniciativa de voluntariado que se propõe emancipatória, ou transformadora, podem perseguir.

É sempre bom ter um norte, e um sentimento de que um dia a gente pode chegar lá!

Seis características de um voluntariado transformador:

1- Está além dos aspectos morais do grupo promotor

O voluntariado emancipatório tem o ser humano no centro, e por isso guia-se por uma ética mais global, independente das questões morais que portam os seus distintos promotores, e que por vezes podem tentar vinculá-lo moralmente.

Isso significa que um voluntariado transformador tem no centro a tolerância e o pluralismo, centrado no bem comum. 

“É um valor próprio da pessoa humana, que tem origem em sua dignidade; independe de determinações, prescrições e crenças religiosas, que criam comunidades morais distintas e, na maioria das vezes, antagônicas. É, tal como os direitos civis (vida, liberdade, direito de expressão etc.), um valor universal, é exercida pela pessoa, na sociedade civil, e exercê-la independe, portanto, do papel de cidadão, de crente etc.” (Selli e Garrafa, 2006, p.243).

Por exemplo, um voluntário de uma religião não pode excluir um parceiro que seja de outra religião, muito menos tentar forçar seus costumes e moral sobre os outros.

2- É igualitário nos seus fins e nos meios

E isso significa que a prática do voluntariado transformador, tal e qual se propõe, não comporta desigualdades de direitos ou distinções de raça ou de outros gêneros.

Além disso, é uma prática dissonante daquelas que hierarquizam o doador como superior, e o receptor como inválido, princípio de uma prática institucional histórica, geradora do assistencialismo no Brasil.

Ao mesmo tempo, situando os beneficiários no mesmo patamar, convida-o e reconhece-o como um cidadão em potencial, tal como eu, tal como você,  latentes em seu crescimento pessoal e no acesso e no exercício dos direitos e deveres.

“É praticado entre pessoas que comungam tanto idênticas quanto diferentes moralidades; sua prática deve estabelecer uma relação horizontal (unívoca)”  (…) e “caracteriza-se por ser uma busca pela justiça dos destinatários da conduta voluntária livre de paternalismo ou de qualquer outra forma de autoritarismo e deve partir de uma postura democrática radical, que vê no outro um igual tanto em dignidade quanto em autonomia para buscar seus fins”. (Selli e Garrafa, 2006, p. 244)

3- Busca a reciprocidade, alteridade e todos aprendem com as diferenças

“Situa-se entre a ideia de imparcialidade – ser movido pelo bem geral do outro – e a ideia de benefício mútuo – reciprocidade” (Selli e Garrafa, 2006, p. 244), numa concepção em que todos ganham com a prática do voluntariado.

Nessa dinâmica de reciprocidades, uma mera interação com um sujeito proveniente de um lugar social diferente do voluntário já traz para ambos uma ampliação da visão de mundo, de entendimentos e trocas de experiências de vida.

É a velha história: todo mundo sai ganhando.

E em tal concepção, onde não existe um cidadão “coitado”, a noção do ‘altruísmo abnegado’ acaba por perder a força, ou lugar.

Aquela coisa de ensinar a pescar também se relativiza, pois quem sou eu um adulto de classe média, para ensinar algo para uma pessoa com uma vida repleta de adversidades e superações? Vou ali aprender, e com humildade, construir algo em cooperação e coletividade.

O voluntário transformador não está sendo “bom de coração”, está sendo inteligente socialmente, e isso parte por valorizar a experiência de vida e os valores que tem “o outro”.

 “é uma busca da reciprocidade e da alteridade; uma abertura ao outro e ao fato de participar de um mesmo universo existencial”, afirma (Selli e Garrafa, 2006, p. 249).

4- Não busca obter vantagens políticas

O enunciado é claro. Nesse caso, não há a obtenção de vantagens no campo político, e em outras esferas de influências.

Nem chega perto disso. Em cenário nacional ou internacional.

5- Não captura pessoas de forma utilitária

“É um compromisso unilateral e personalíssimo, que não se liga a nenhuma forma de ativismo (político, social, religioso) que busque no voluntariado uma função instrumental para seus desígnios” (Selli e Garrafa, 2006, p. 248),

fortalecendo o pressuposto anterior que propõe a atuação ética com fins públicos e universais, contra a ativação de interesses de um grupo específico, com moral específica.

Logo,

“não possui, ao menos conscientemente, um conteúdo utilitário; não vê em sua prática a criação de uma moeda de troca ou uma forma de barganha psicológica ou religiosa” (Selli e Garrafa, 2006, p. 248).

E trocando em miúdos é que não da para usar os voluntários sem considerar as suas verdadeiras aspirações, muito menos usar os beneficiários como se a única conexão com a sua história fosse a fotografia para publicar as ações nos relatórios anuais.

Atitudes desse gênero, em médio prazo, descontrói a confiança no programa de voluntariado, e por consequência na empresa. E corre o risco de não transformar ninguém e ainda manter as pessoas em situação de dependência.

6- Não se aquieta enquanto não atinge resultados concretos

“Denota um inconformismo individual para com o status quo que leva a uma ação positiva em favor de mudanças sociais concretas” (Selli e Garrafa, 2006, p.249).

E pressupõe que o voluntariado que está assentado sob a lógica da solidariedade crítica faz uma leitura de contexto e planeja como melhor gerar emancipação.

E esse é o verdadeiro resultado: Quanto mais próximo da emancipação mais transformador.

Esse critério de ações concretas, geridas e traduzidas em resultados medidos, está muito bem suportado pelas melhores práticas do voluntariado empresarial. E vale a pena manter nesse caminho.

São como seis mandamentos que você pode ter em vista ao pensar as suas ações no dia a dia.

É uma cartilha que serve para o ano todo.

(Gostou desse conteúdo? Ele é parte da minha pesquisa pro Mestrado em Estudos Brasileiros sobre voluntariado aqui na Universidade de Lisboa).

A solidariedade crítica

Essas 6 ideias partem de uma pesquisa que fiz, na qual encontrei o que as autoras Selli e Garrafa (2006, p.243) definem como as ‘características de solidariedade crítica’

E o que seria solidariedade crítica?

Em pequeno resumo, é a ligação de solidariedade entre entes e pessoas da sociedade civil que tem consciência também da sua responsabilidade política e de cidadania.

E de acordo com as autoras: 

“A solidariedade não se esgota enquanto relação típica da sociedade civil. Ao contrário, possui um elemento político que tem como referência o Estado. A capacidade de entender essa dimensão política, que se refere à cidadania e à possibilidade de intervir de forma ativa na definição de políticas públicas, também caracteriza essa dimensão crítica. (Selli e Garrafa, 2006, p. 240).

E o que elas apresentam como características desse tipo de participação, é o que adapto abaixo, para qualificar um voluntariado que tenha maior potencial de transformar realidades.

E se quiser dicas do que fazer nesse dia:

Confira esses dois posts que podem te ajudar a reconhecer e celebrar o voluntariado na sua empresa:

·        Ideias para celebrar o Dia Internacional do Voluntariado com ações ligadas aos ODS

·       8 cartazes do Dia Internacional do Voluntário que vão fazer você querer abraçar o mundo

Obrigado a todos os voluntários que se dedicam a transformar realidades!

Feliz Dia Internacional dos Voluntários !!!

Bibliografia:

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Bruno Barcelos

-Treze anos de significativa experiência nas áreas de Sustentabilidade, Investimento Social Privado, e Voluntariado, com foco em planejamento, gestão, monitoramento, e avaliação de iniciativas privadas e públicas. Bem como experiência em gestão (estratégica – operacional) empresas e em ONGs e articulação entre parceiros dos setores diversos. Amplo experiência no desenvolvimento de assessorias, capacitações e palestras nos temas acima citados, adicionalmente às expertises em prospecção, atendimento, negociação, venda, e na criação/customização de soluções para empresas de grande, pequeno e médio porte nos temas correlatos.

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