Voluntários ONU – Conheça o relatório 2018 e utilize a favor do seu Programa

A UNVolunteers, órgão das Nações Unidas responsável por estimular e estudar o voluntariado no mundo , lançou em meados de 2019 o seu Informe Sobre o Estado do Voluntariado no Mundo – 2018.  A edição desse ano teve como tema: ‘O Laço que nos une: voluntariado e resiliência comunitária’, super importante para o momento que vivemos.  

Veja um pouco das informações constantes nesse documento e perceba como os dados podem fundamentar as ações do seu Programa de Voluntariado Empresarial.

Os voluntários estão na linha de frente

“Como este relatório demonstra, os voluntários estão na linha de frente de cada uma das grandes crises e tensões mundiais, respondendo a problemas de todas as dimensões dentro das várias comunidades. este cenário varia de um país para outro, e está mudando porque os desafios estão cada vez mais complexos.” (IEVM – 2018)

Em exemplo da diversidade da atuação dos voluntários no planeta, o relatório cita a República Centro-Africana, onde organizações comunitárias estão protegendo pessoas deslocadas pelos conflitos regionais e ajudando-os a superar os traumas; no Mali e na Nigéria, onde os voluntários oferecem seu tempo e experiência para combater a desnutrição; e no Nepal, onde a entrega de suprimentos para a subsistência das vítimas de desastres naturais não teria sido possível sem voluntários.

Conforme o relatório, o serviço voluntário goza de maior adesão desde o último informe em 2015.

“os voluntários receberam reconhecimento como um recurso essencial e um meio transversal para a implementação da Agenda 2030 e para o Desenvolvimento Sustentável”. (IEVM – 2018).

Recentemente, 17 Estados-Membros das Nações Unidas destacaram as contribuições de programas de voluntariados em seus Relatórios Nacionais.

E com a ambição de ampliar a escala deste reconhecimento, o terceiro Relatório sobre o estado do voluntariado mundial fornece novas evidências da relação entre o serviço voluntário e a resiliência comunitária.

Ele propõe ideias sobre a melhor maneira de apoiar o voluntariado local, apontando as suas forças e oportunidades de melhorias, além de demonstrar como os governos e outros atores afins com a cultura da paz e do desenvolvimento podem apoiar esses agentes territoriais de forma mais eficaz.

É um relatório que evidencia o voluntariado informal como o grande potencial mundial para combater às desigualdades e realizar inclusão dentro das comunidades.

“O voluntariado permite que as pessoas trabalhem juntas, desenvolvendo oportunidades coletivas para lidar com os riscos, e conecta pessoas e comunidades com todo um sistema mais amplo de suporte. O voluntariado como comportamento social universal e é, portanto, um recurso fundamental para a resiliência das comunidades”. (IEVM – 2018).

A estrutura do relatório

Pela primeira vez, o Relatório é baseado em pesquisas de campo realizadas por voluntários, um contingente de 1200 participantes de 15 comunidades em todo o mundo.

Trata-se de um documento digital de 144 páginas traduzidas em vários idiomas.

Infelizmente não encontrei uma versão em português, mas ele pode ser compreendido facilmente em espanhol ou inglês.

Sua estrutura como um todo abrange:

  • Introdução: Por que esse relatório? E por que agora?
  • Capítulo 1: Meios de implementação eficazes e transversais: o voluntariado como um ativo global para a paz e o desenvolvimento.
  • Capítulo 2: “Nós precisamos cuidar de nós mesmos”: o voluntariado local nas comunidades sob pressão e tensão.
  • Capítulo 3: “Estamos cientes dos limites do nosso trabalho”: colaborações externas com o voluntariado local para a resiliência comunitária.
  • Capítulo 4: Este trabalho não pode ser medido apenas em termos financeiros: o voluntariado como recurso renovável.
  • Conclusão: Criação de novos modelos de resiliência.

E quem preferir dar uma lida apenas no resumo, pra facilitar é só clicar aqui

Principais insights do relatório

O voluntário local é uma estratégia fundamental e está presente nas comunidades resilientes: a escala e os escopos das atividades voluntárias a fim de responder às crises e às tensões é imensurável. Mas a contribuição voluntária vai bem além de sua magnitude, pois assim como outros tipos de participação cidadã, ela é tanto um meio como também fim em si mesma.

O voluntariado local favorece estratégias coletivas para gerenciar e lidar com riscos e crises:  Ao reunir ações individuais sob um objetivo comum, o voluntariado amplia as opções e oportunidades disponíveis para as comunidades, pois catalisa as forças e as maximiza. Ele organiza e identifica minimamente os problemas e propõe soluções, primeiramente entre os membros integrantes da comunidade.

As características do exercício local do voluntariado que são mais valorizadas pelas comunidades são a capacidade de auto-organizar-se e de estabelecer laços e vínculos intrapessoais: os membros das comunidades valorizam a possibilidade de estabelecerem prioridades de ação e de assumirem a responsabilidade pelas questões locais a partir de uma ação de voluntariado. Além disso, as redes que se formam, a confiança e a empatia que são geradas a partir da ação social são reconhecidas em todos os contextos.

O voluntariado local pode impulsionar ou diminuir a resiliência da comunidade sob diferentes condições: a dualidade do serviço voluntário como meio e como fim em si mesmo implica que de acordo com a abordagem, se mais assistencialista, por exemplo, ou se não estabelecer o devido diálogo entre a comunidade, pode acabar por enfraquecer os laços, e por consequencia a resiliência.

O voluntariado é especialmente importante para os grupos mais vulneráveis e marginalizados: A ajuda mútua e a reciprocidade são estratégias importantes para um passo adiante na qualidade de vida das comunidades isoladas e as mais vulneráveis. As ações autoorganizadas pelas comunidades podem ajudar que os grupos marginalizados satisfaçam e se apoiem nas suas próprias necessidades diante da ausência de serviços e de assistência pública.

Os custos e benefícios do voluntariado nem sempre se distribuem com equidade: é mais provável que sejam as mulheres quem assumam a maioria do trabalho voluntário informal em suas próprias comunidades (por exemplo, como uma ampliação das suas funções de cuidados domésticos) e os benefícios trazidos pelo voluntariado formal nem sempre chegam disponíveis a todos de uma comunidade, pois os recursos são limitados.  

O modo como os atores externos intervém no contexto comunitário é muito importante: as colaborações desse tipo, notadamente através de um voluntariado formal que intervém nas comunidades devem estimular e fortalecer em primeiro lugar as características positivas desses locais. Se fazem o contrário, podem debilitar as relações posicionando as pessoas como se apenas fossem um recurso, ou um sujeito passivo. Isso reforça as desigualdades.

A colaboração eficaz com voluntários pode fazer com que o serviço voluntário passe de um mecanismo de resposta para um recurso estratégico da resiliência comunitária: a formação de alianças complementares aos esforços que já existem nas comunidades ajudam a prevenir os riscos. Reunir os recursos e forças dos parceiros e atores da rede de uma forma adequada permite que as comunidades adotem iniciativas preventivas para lidar com os riscos em longo prazo, ou seja, para serem mais sustentáveis e resilientes.

Um entorno propício para o voluntariado fortalece a resiliência comunitária: os governos e outros associados podem fortalecer o voluntariado e a resiliência de duas formas: em primeiro lugar, promovendo um ecossistema favorável ao voluntariado, em segundo lugar, formando alianças baseadas num maior reconhecimento das forças e do valor dessas comunidades. Isto garantirá que os propósitos se alinhem num compromisso que tem sido global em todo mundo e estimulado pela Agenda 2030.  

O que as comunidades percebem no voluntariado que o torna uma ferramenta a favor da sua resiliência

  1. Gera conexões humanas, solidariedade entre todos, faz crescer a confiança entre as pessoas, estimula e exercita a reciprocicade e as relações colaborativas.
  2. Auto-organização: os voluntários no contexto comunitário são a primeira linha de ação diante das crises, tem velocidade de resposta e censo de urgência, são capazes de inovar com criatividade muitas vezes com recursos escassos, e flexibilidade.

O que meu programa de voluntariado empresarial pode aprender com isso?

O relatório apresenta amplos dados, e apresenta que o trabalho voluntário no mundo equivale a 109 milhões de trabalhadores como se esses estivessem trabalhando em tempo completo.Essa cifra supera muitas das principais indústrias mundiais, e vale conferir essas estatísticas no relatório para quem tiver curiosidade.

O ponto é que desse número, apenas 30% corresponde ao voluntariado formal, e 70% ao voluntariado informal. Isso significa que os programas empresariais estão contidos dentro desses 30% junto com ONGs e programas governamentais e que em sua maioria não estão alcançando a maior parte da população.

Isso fica muito claro quando você faz uma mobilização interna para uma programa formal, bem estruturado, muita gente se inscreve mas um percentual muito pequeno se mantém atuante. As pessoas, os colboradores, que também são cidadãos, não estão sendo capturados pela solidariedade que você está estimulando na comunidade.  

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O que acontece?

O que pode retirar do relatório como limites ao voluntariado institucional interventivo num contexto comunitário é (inspirado tabela 3.1 o relatório):

  • Hierarquização: Se o voluntariado levado pela sua empresa estabelece hierarquias da empresa para a comunidade em forma de um de/para e não um de/com a comunidade, o trabalho tende a perde credibilidade coesão. Mesmo entre os colaboradores, a marca por hierarquias é extremamente desmotivantes. A horizontalidade das relações é essencial, especialmente da empresa que se coloca do tamanho e aprendiz com a comunidade.  
  • Competição: na provisão de serviços que já são prestados por outros atores, como por exemplo o setor público, ou outras empresas, ONGs. O discurso da complementariedade é sempre mais vinculativo.
  • Desvalorização do trabalho local: desvalorizar o que é feito localmente e supervalorizar o que é oferecido pela empresa.
  • Incensibilidade cultural: desconhecimento das características culturais da comunidade na qual vai atuar. Iniciativas ou comportamentos que desrespeitem o estabelecido no território podem jogar por terra as iniciativas
  • Absorção:  quando as ações voluntárias são assumidas pela comunidade em parceria com os governos, mas no caso do voluntariado empresarial isso é um indicador de sucesso! Significa que você pode retirar feliz o seu bonde e empreender em outras fontes.

Se no seu programa prestar atenção a esses itens será um bom aprendizado que terá a partir dos dados desse Relatório.

Além disso, ele aponta atitudes positivos e engajadoras que podemos adaptar da seguinte forma para os programas corporativos:

  • Recursos financeiros: um programa de voluntariado tende a ter adesão de longo prazo se ajuda e ensina uma comunidade a se autosustentar.
  • Conhecimentos técnicos: as comunidades valorizam a partilha de conhecimentos técnicos e os colaboradores adoram partilhar o que sabem. Essa competências estºao relacionadas tanto a aquelas do seu exercicio profissional como pessoal.
  • Padrões de qualidade: os programas corporativos podem estimular nas comunidades novos padrões daquilo que já é feito informalmente, desde a gestão de negócios até algum atendimento mais especializado.
  • Reconhecimento: o seu programa de voluntariado ppode valorizar e reconhecer a todo momento, do início ao fim, os valores, saberes e competências presentes nas comunidades e entre os colaboradores. As pessoas querem e precisam mostrar aquilo que elas tem de bom e útil.
  •  Redução de custos: conhecimentos técnicos ou criativos de como economizar e fazer a dinâmica comunitária girando de uma forma mais eficiente é sempre bem vinda.
  • Conhecimento local e boas relações: ou sua empresa tem um porta voz, ou os colaboradores interagem e são preparados à ponto de estabelecer relações frutíferas e de longo prazo no território.
  • Fortalecimento da resiliência: criando e oferendo mecanismos para que as comunidades estejam preparadas para períodos e situações de crises e tensões.

E assim, como um filtro que se passa naquilo que tem sido oferecido pelo seu programa de voluntariado empresarial é possível perceber como a sua iniciativa pode também fortalecer a resiliência das comunidades com as quais se relaciona, e além disso vincular cada vez mais pessoas que já são solidárias informalmente, mas que podem consigo empreender e fazer parte de um esforço muito maior com resultados maximizados.

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Bruno Barcelos

-Treze anos de significativa experiência nas áreas de Sustentabilidade, Investimento Social Privado, e Voluntariado, com foco em planejamento, gestão, monitoramento, e avaliação de iniciativas privadas e públicas. Bem como experiência em gestão (estratégica – operacional) empresas e em ONGs e articulação entre parceiros dos setores diversos. Amplo experiência no desenvolvimento de assessorias, capacitações e palestras nos temas acima citados, adicionalmente às expertises em prospecção, atendimento, negociação, venda, e na criação/customização de soluções para empresas de grande, pequeno e médio porte nos temas correlatos.

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