Agenda 2030: os desafios para integração do voluntariado aos ODS

O Relatório de “Síntese Global” UN Volunteers fornece uma visão geral de como o voluntariado está integrado atualmente na Agenda 2030, e de como pode (e deve) promover os ODS com base nos três objetivos propostos no seu plano de ação: de 1) apropriar, 2) integrar e 3) medir os esforços e resultados do voluntariado para a Agenda.

O reporte é baseado em evidências e dados coletados de 43 “Avaliações Nacionais Voluntárias” enviadas entre 2016–2019, por consultas presenciais no território e online, a diferentes stakeholders e outras atividades geradoras de evidências.

Confira a tradução de um bocadinho do seu conteúdo.

O voluntariado para o desenvolvimento sustentável

O reporte lembra que desde 2015 governos, sociedade civil e outras partes interessadas têm trabalhado juntos para agir, construir parcerias e mobilizar recursos para alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Se dirigindo à Assembleia Geral, em janeiro de 2020, o Secretário-Geral das Nações Unidas convocou a comunidade global para embarcar em uma Década de Ação global. Na época de seus comentários, poucos poderiam ter imaginado a agitação sem precedentes que afetaria o mundo apenas algumas semanas depois. O surgimento da pandemia COVID-19 exacerbou alguns dos desafios de desenvolvimento mais persistentes.

No entanto, o documento deduz que, diante de situações adversas (ou não),

o voluntariado poderia ter um impacto muito maior se todo o seu potencial fosse apoiado por estruturas, sistemas e parcerias que reconheçam e respondam com flexibilidade às suas características complexas e mutáveis ​​e contribuições holísticas” (Relatório de Síntese Global – 2020).

O voluntariado ainda é frequentemente visto como algo separado de outros aspectos do desenvolvimento. Da mesma forma, a ampla gama de práticas de voluntariado em todo o mundo raramente é reconhecida como contribuição para alcançar o desenvolvimento sustentável. E apesar desses desafios, novas tendências podem ajudar a medir, provar e fortalecer o impacto do voluntariado para o desenvolvimento.

O Plano de Ação para Integrar o Voluntariado na Agenda 2030 estabeleceu três objetivos para aprofundar a integração do voluntariado no desenvolvimento sustentável:

  1. fortalecer a apropriação das pessoas pela agenda de desenvolvimento;
  2. integrar o voluntariado em estratégias de implementação nacionais e globais;
  3. medir o voluntariado para contribuir para uma compreensão holística do envolvimento das pessoas na implementação dos ODS.

O relatório “Síntese Global” está dividido em duas seções:

A primeira seção examina o panorama geral de como o voluntariado está integrado atualmente, ao entrarmos na Década de Ação.

Na segunda seção, as partes interessadas oferecem seus pontos de vista sobre como realizar e repensar o potencial do voluntariado para a Década de Ação. Os contribuintes representam uma ampla gama de perspectivas, desde acadêmicos a formuladores de políticas e os próprios voluntários da linha de frente, cobrindo todos os setores e regiões do mundo.

Voluntariado no início da Década

Escala do voluntariado

O relatório estima que um bilhão de pessoas se voluntariam a cada ano para ajudar suas comunidades ou para fazer a diferença nas causas que lhes interessam. Os esforços de medição, que ainda estão em seus estágios iniciais, mostram que o voluntariado é universal, embora com variações regionais em participação de diferentes subpopulações.

“Há uma divisão de gênero em termos de carga de trabalho, funções e setores do voluntariado, com as mulheres assumindo a maior parte” (Relatório de Síntese Global – 2020).

O voluntariado é cada vez mais realizado por pessoas de todas as idades, desde crianças e adolescentes até pessoas em empregos de tempo integral e aposentados.

A maior parte do trabalho voluntário é organizada informalmente entre as pessoas como uma forma de apoio mútuo. O restante é institucional, ou formal, organizado por vários grupos, associações e organizações, que representam uma proporção significativa da mão de obra nacional.

Âmbito das atividades de voluntariado

Para explorar as ligações entre o voluntariado e o desenvolvimento, quatro grandes tipos de trabalho voluntário foram identificados pelas Nações Unidas em 1999:

  • ajuda mútua e autoajuda;
  • serviço voluntário e filantropia;
  • defesa e campanha;
  • participação.

No âmbito da Agenda 2030, uma nova pesquisa foi realizada para revisar esses tipos de trabalho voluntário à luz das tendências e das evidências. A revisão concluiu que os quatro tipos originais de voluntariado ainda são relevantes em 2020, incluindo ainda o item lazer.

Ajuda mútua é a sorte de atividades informais entre pessoas – não institucional – incorporadas nas práticas comunitárias e culturais. As pessoas se reúnem e se oferecem como voluntárias em resposta a uma necessidade ou problema compartilhado.

O serviço voluntário é quando um grupo de voluntários respondem às necessidades de outra pessoa ou comunidade.

A campanha geralmente envolve a ação coletiva de um grupo ou indivíduo para amplificar as vozes “marginalizadas” e para mudar um status quo.

A participação é onde os voluntários dedicam tempo e esforço para se envolver com a governança a pública (participação cidadã) e os mecanismos de tomada de decisão em diferentes níveis, em geral com o poder público ou institucional.

Voluntariado como lazer: são atividades voluntárias que expressam interesses ou paixões pessoais, como nas artes, cultura e esportes. Eles ainda contribuem para um maior bem-estar e coesão dos próprios voluntários.

Implicações para integrar o voluntariado na Agenda 2030

A escala, o alcance, a diversidade e a complexidade dos padrões globais de voluntariado em 2020 fornecem várias considerações para “re-imaginar” o voluntariado até 2030.

É necessário refletir sobre os tipos de práticas de voluntariado que podem melhor apoiar uma maior apropriação da Agenda do Desenvolvimento pelos públicos mais vulneráveis.  

Também é importante entender os modelos que melhor se ajustam às diferentes motivações dos voluntários, desde esquemas formais até alianças menos fortes.

Finalmente, é necessário determinar como as práticas de voluntariado do século XXI podem ser mensuradas. E medir esse progresso traz alguns desafios:

Reenquadrar a narrativa para uma fala mais integrada, que venha também da comunidade. A compreensão dominante do voluntariado no discurso político foi estruturada e está enraizada nas experiências dos países do Norte. Até o momento, tem havido uma tendência de negligenciar a riqueza das práticas de voluntariado no Sul global e do voluntariado local no nível das comunidades ou de vê-las como contribuições legítimas para o desenvolvimento. Essas lacunas de compreensão devem ser abordadas com urgência para fornecer uma base mais integrada e significativa para as políticas e programas que integrem o voluntariado para os ODS.

Reconhecer todos os tipos de trabalho voluntário. Os voluntários se envolvem em uma ampla gama de atividades em seu tempo livre – desde ativistas engajados em movimentos sociais e associações comerciais, até comunidades online. Isso tem implicações para as abordagens que têm tradicionalmente se concentrado mais no voluntariado formal. Novos modelos são necessários.

Lidar com desigualdades persistentes. Os padrões de participação mostram como o voluntariado geralmente reflete as linhas de falha de gênero, idade, situação de emprego e uma série de outros fatores socioeconômicos. As oportunidades de apropriação da agenda de desenvolvimento devem aproveitar o poder do envolvimento de toda a sociedade para ir além e aumentar a voz e a representação daqueles mais excluídos e vulneráveis, em vez de meramente relegar as responsabilidades aos menos capazes de lidar com isso.

Combater as desigualdades emergentes. Oportunidades emergentes e práticas em evolução no voluntariado trazem novos riscos. Por exemplo, o voluntariado online pode inadvertidamente reforçar a exclusão digital e, de fato, há sinais iniciais de que a pandemia de COVID-19 pode impor mais desvantagens digitais a certos grupos de pessoas. As oportunidades para as pessoas participarem devem levar esses desafios em consideração, especialmente em contextos menos desenvolvidos, se o voluntariado deve apoiar a inclusão.

Fortalecimento da participação das pessoas na agenda de desenvolvimento

A Agenda 2030 reconhece que a chave para o sucesso da agenda é que ela é “das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas”. O voluntariado é uma das principais formas das pessoas participarem dos processos de desenvolvimento.

Cinco anos após a implementação dos ODS, governos, sociedade civil e outros parceiros estão começando a reconhecer o potencial do voluntariado como um veículo de participação e engajamento.

Conforme mostrado no relatório, muito do foco do envolvimento de voluntários até o momento tem sido:

  • na conscientização sobre os ODS
  • consultoria sobre problemas de desenvolvimento e criação de estruturas e plataformas para mobilizar as pessoas (especialmente os jovens) para os ODS.

Em última análise, ainda não é possível afirmar se esses esforços estão permitindo que as pessoas influenciem as políticas, e o cenário concretamente. A próxima “Década de Ação” deve incorporar urgentemente o espírito de apropriação pelas pessoas da Agenda 2030.

As consultas feitas no relatório trazem em comum a necessidade de criação de canais para voluntários compartilharem informações para conectar o local com o nacional e o global.  E que redes e coalizões de organizações que envolvem voluntários foram frequentemente citadas como amplificadoras das vozes dos voluntários e das próprias organizações em nível nacional.

Integrando o voluntariado na implementação global e nacional na Agenda 2030

A consciência sobre as contribuições dos voluntários para os ODSs está certamente crescendo. Apesar de ser apenas uma medida de reconhecimento ele aumentou de apenas 18% em 2016 para um máximo de 63% em 2018.

No entanto, esse reconhecimento geral não demonstrou níveis comparáveis de integração de políticas de desenvolvimento social e econômico.

Embora quase metade reconhecesse o papel dos voluntários, em contraste, menos de um quinto (18%) apresentou a integração do voluntariado nas políticas e planos nacionais para abordar os ODS de 2016 a 2019.

Isso foi reconhecido como um desafio nas consultas do relatório. Embora muitos países tenham destacado as contribuições de voluntários nas áreas de redução da pobreza, saúde e educação, poucos apontaram para sua integração em estruturas de práticas intersetoriais. Isso significa que as contribuições dos voluntários para esses ODS não foram sinergizadas com outros esforços.

Um pequeno número de exemplos de integração mais ampla foi compartilhado. A maioria destes são novos, tendo sido desenvolvido desde 2018. Será importante a partilha gradativa de boas práticas, conhecimentos e evidências à medida que progridem para permitir uma compreensão mais aprofundada das oportunidades e desafios decorrentes de uma abordagem integrada no contexto dos ODS.

Em todos os contextos, independentemente da integração mais ampla, plataformas nacionais, órgãos de coordenação e redes foram relatados como importantes para coordenar, apoiar e criar canais de comunicação em todo o espectro de atores voluntários.

Mais de 40% dos países relataram ter um órgão nacional de coordenação do voluntariado.

Muitos países estabeleceram programas de voluntariado para canalizar os esforços dos cidadãos para os ODS. Mais de 40 por cento dos países relataram ter pelo menos um esquema nacional, e foram comumente relatadas as estratégias nacionais da juventude.

Avaliação

A integração efetiva do voluntariado na Agenda 2030 requer evidências relevantes de impacto e melhores conhecimentos para tal.

Até recentemente, os esforços voluntários eram frequentemente reconhecidos mais por meio de compartilhamento de experiências que em análises sistemáticas orientadas para resultados de programas mais amplos. Sendo assim, a medição dos esforços voluntários é uma das práticas mais baixas no conjunto de esforços do “Plano de integração do voluntariado nos ODS” até agora.

Essas e outras informações aprofundadas podem ser encontradas no relatório. Recomendo fortemente sua leitura. Principalmente se deseja alinhar o seu programa de voluntariado aos ODS ou realinhar, caso já tenha o feito.

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Bruno Barcelos

Bruno Barcelos

Quatorze anos de significativa experiência em gestão de projetos nas áreas de Sustentabilidade, Investimento Social Privado, e Voluntariado, empreendidos por iniciativas privadas e públicas. Além de experiência em gestão de empresas e em OSs, bem como a articulação entre parceiros dos setores diversos. Ampla experiência no desenvolvimento de assessorias, capacitações e palestras nos temas acima citados para empresas de grande, pequeno e médio porte.

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