Paraisópolis no combate ao COVID-19

Diante da crise do coronavírus, como a solidariedade, a participação e o engajamento social acontecem nas comunidades de baixa renda? Esse artigo vai mostrar como comunidade de Paraisópolis vem enfrentando a Pandemia.

Conversei com o Gilson Rodrigues líder comunitário e presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis. A organização, sem fins lucrativos, existe há 35 anos e é composta por moradores locais que buscam a representação local e a transformação positiva do território.

O Gilson também coordena o G10 das favelas e conta que durante uma crise tal qual o Covid-19 pesa a ausência do Estado (em todas as esferas – Federal, Estadual e Municipal) e de políticas públicas, sendo que “o que é feito é ineficiente, demorado e burocrático”. Nesse caso, os moradores precisam se organizar para garantir as providências básicas: “então aqui nós temos que montar nossa própria política pública”.

 “A ideia do G-10, é inspirar o Brasil inteiro a olhar para a favela, tornando as Comunidades grandes Polos de Negócios, atrativos para Investimentos, de forma a “transformar a exclusão em Startups e Empreendimentos de Impacto Social” de sucesso. Um ponto importante para os organizadores da iniciativa é deixar claro que o objetivo não é arrecadar doações ou patrocínio, mas investimentos que gerem tanto retorno ao investidor quanto o desenvolvimento econômico das comunidades”. Por Gilson Rodrigues

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(Fonte: União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis )

Gilson conta que em Paraisópolis as iniciativas de combate à pandemia de Paraisópolis estão sendo replicadas em 361 favelas e conta com grande rede de solidariedade entre os moradores locais.  

Veja e aprenda com esse processo de mobilização comunitária com base no que está sendo feito:

Comitê local de crise

No universo do voluntariado temos discutido como a organização por comitês locais facilita, descentraliza a gestão e a operacionalização das ações, e ao mesmo tempo, consegue ter mais pessoas envolvidas.

O “Comitê das favelas” foi criado para a gestão da crise. Foram eleitos um presidente de rua para cada  50 moradores. Esse presidente é um morador voluntário responsável por cuidar dessa quantidade de pessoas, e monitora toda a situação através de grupos de whatsapp.

O presidente de rua tem as seguintes funções ao seu alcance:

  1. Encontrar dentre as 50 pessoas de seu grupo um vice-presidente para garantir as ações no caso de sua falta;
  2. Conscientizar os moradores a ficarem dentro de casa cumprindo a quarentena e as regras de isolamento corretamente;
  3. Acionar ambulâncias quando necessário para que as mesmas façam o encaminhamento de doentes para os hospitais.

Na comunidade existem 3 ambulâncias, sendo que uma é UTI, com 7 profissionais 24h disponíveis. Vale dizer que Paraisópolis é um bairro da cidade de São Paulo, pertencente ao distrito de Vila Andrade localizado na zona sul paulistana, e sua população, é de 100 mil habitantes.

Gilson diz que após as duas primeiras semanas em que foi iniciado o trabalho com os presidentes de rua, foi percebido que o engajamento das pessoas para doar diminuiu. “Mas, o trabalho precisa continuar. E crescer não só em Paraisópolis, mas nas comunidades do G10”, diz.

Ações de Paraisópolis no combate ao vírus

O líder comunitário conta algumas ações realizadas tanto para tentar impedir a propagação do vírus quanto para lidar com os efeitos colaterais decorrentes, como por exemplo a crise econômica. São iniciativas voluntárias relativamente simples mas muito úteis, que em conjunto com parceiros, podem ser empreendidas também na sua comunidade.

Se aqui nesse blog temos falado com um direcionamento muito grande para as empresas, pode ser importante para essas saberem se o seu Programa de Voluntariado ou o seu investimento social privado podem replicar alguma dessas práticas exemplificadas a seguir, em seu território, ou mesmo contribuir por alguma em execução em Paraisópolis.

Organização de casas de acolhimento

Foram criadas duas casas de acolhimento em escolas estaduais, uma conseguindo abrigar 250 e a outra 260 moradores durante o período de quarentena.  

Transformamos duas escolas públicas estaduais de Paraisópolis em alojamentos para isolar positivos da COVID-19. Aqueles que não possam cumprir isolamento em suas casas, pela convivência muito próxima com parentes idosos ou do grupo de risco (diabetes, problemas cardíacos e renais crônicos, tuberculose, hipertensão, etc.) serão direcionados pelos profissionais das UBS locais, para as “casas” pelo período da quarentena de 15 dias. As casas de acolhimento são uma iniciativa da comunidade, apoiada por pessoas físicas e algumas empresas. E também, pela Associação Parceiros da Educação”. Conta Gilson.

Alimentação e fortalecimento da imunidade

Essa iniciativa fornece marmitas todos os dias, assim como cestas básicas, com apoio do Bistrô Mãos de Maria, formado por mulheres empreendedoras do bairro. O grupo é responsável por produzir e entregar o alimento, e o projeto tem como principal foco os doentes crônicos e idosos.

Para evitar aglomeração, a entrega é feita porta a porta por voluntários.

(Fonte: União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis )

Fortalecimento do comercio local

Segundo Gilson Rodrigues, o comércio local tem sofrido bastante. São 14 mil pontos de comércio que buscam meios de manter os seus negócios e sua fonte de renda. Para ajudar nisso, há o estímulo para que aqueles parceiros que queiram doar produtos de alimentação e higiene comprem com os comerciantes locais.

“E ainda evita aquele preconceito dos caminhões que não querem entrar na favela, um constrangimento para os moradores e para o parceiro doador”.

Programa – Adote uma diarista

De acordo com o Gilson, as diaristas foram as que mais sofreram. São um grupo grande de moradores, prestadoras de serviço, e que foram enviadas para suas casas, “sem um tostão no bolso, e só serão chamadas depois que passar a crise”.

O programa consiste em por 3 meses contribuir com 300 reais mais cestas básicas e produtos de higiene para as diaristas dispensadas. São 1032 inscritas mas até agora só 150 foram adotadas de forma completa, as demais recebem por enquanto apenas a cesta básica e o material de higiene.

Produção de máscaras de proteção

Foi iniciado um processo de produção de 1 milhão de máscaras, através do Projeto Costurando Sonhos. São máscaras de pano, “brincamos que é o  homme-office das costureiras da favela do Brasil”, diz Gilson, e que é replicado em outros locais do Brasil através do G10.

As máscaras de pano vão ser esterilizadas em Parceria com o IPEN – Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – para desinfecção na USP e distribuídas para a comunidade.

Telemedicina

Consiste em canais de acompanhamento psicológico e médico pela internet e telefone juntamente com parceiros externos. E é uma importante prática para desobstruir o sistema de atendimento ao Covid e ao presencial, evitando aglomeração de pessoas nos postos de saúde, dentro do possível. Os casos que podem ser resolvidos online ou à distância, já ajudam.

Formação de socorristas

Serão formados 240 socorristas pelos bombeiros civis para que ajudem a população no geral e no caso de uma tragédia poderiam apoiar.

Maior dificuldade

Segundo Gilson, a maior dificuldade é conscientizar as pessoas para ficarem em casa. A comunicação está ruim e as recomendações desencontradas. Quando há a falta saneamento básico a situação é ainda pior porque os cuidados com a higiene ficam comprometidos.

Ele conta mais sobre o assunto e fala também da ação de usar pulverizadores agrícolas e drones em todas as ruas de Paraisópolis.

“Com a falta de políticas publicas, a gente se sente abandonado. Como se quem mora nas favelas (13 milhões de brasileiros) não existisse”.

“Iremos usar desinfetantes a base de cloro e outros produtos para higienização e limpeza das ruas”.

Por tudo isso o movimento solidário é tão importante. Nessas horas as pessoas se organizam informalmente e formalmente para se ajudarem mutuamente.

Paraisópolis é um exemplo para as empresas que querem se envolver para além da manutenção dos seus negócios. Ainda há muitos recursos que podem ser revertidos ou redistribuídos. Vale a pena que seu programa social corporativo esteja de olho em práticas comunitárias como essa.

Para saber mais você pode contatar o Gilson pelo linkedin, falar com a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis pelo facebook ou enviar email para: uniao@paraisopolis.org.

Você também pode apoiar Paraisópolis através de doações financeiras na campanha disponível aqui.

Estamos todos aprendendo juntos e é muito importante encontrarmos formas de manter o apoio as instituições financeiras e comunidades no momento em que mais precisam, seja através de doações financeiras ou de forma virtual. 😉

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Bruno Barcelos

-Treze anos de significativa experiência nas áreas de Sustentabilidade, Investimento Social Privado, e Voluntariado, com foco em planejamento, gestão, monitoramento, e avaliação de iniciativas privadas e públicas. Bem como experiência em gestão (estratégica – operacional) empresas e em ONGs e articulação entre parceiros dos setores diversos. Amplo experiência no desenvolvimento de assessorias, capacitações e palestras nos temas acima citados, adicionalmente às expertises em prospecção, atendimento, negociação, venda, e na criação/customização de soluções para empresas de grande, pequeno e médio porte nos temas correlatos.

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