5 competências do voluntariado para um mundo pós Covid

Um novo mundo, feito de novos e melhores tempos, sempre esteve no imaginário das pessoas, e expresso nos votos de fim de ano, nas preces, nos discursos, e nem sempre nas atitudes.

Dos anseios, vem crescendo um desejo coletivo por um mundo mais equânime, sustentável e harmonioso. E isso está refletido em algumas mudanças de comportamento lideradas pelas novas gerações mais conscientes.

Trabalhamos e discutimos, já por alguns anos, sobre a temática da sustentabilidade tentando estabelecer um equilíbrio com o planeta, entre nossa forma de produzir, subsistir e preservar um ambiente saudável, quase como se estivéssemos no controle da situação.

“-salvem o planeta”, alguns diziam…

Entretanto, o próprio planeta nos dá uma reviravolta e convida-nos a repensar o ser e estar num contexto que nos foge ao controle. E veja que bela conclusão:

Nós humanos não temos o controle sobre o planeta! E sobre quase nada na verdade.

Projetando um mundo pós Covid

Então, que tipos de competências são necessárias para atuarmos sobre as mudanças que a Covid-19 nos impele?

E como essas competêncas possibilitam-nos reestruturar um modelo de vida e economia mais harmoniosa, e humilde, em nossa relação com o planeta?

E delas, quais já são desenvolvidas pelo voluntariado?

Esse artigo versa um pouco sobre esses questionamentos, obviamente sem esgotá-los.

(Não deixe de ler até o final e partilhar a sua contribuição).

Competências: senta que lá vem história

No ano de 2004, em Belo Horizonte, ao desenvolver um trabalho sobre educação musical para a faculdade de Música na Federal de Minas Gerais, conheci o autor Howard Gardner e a sua Teoria das inteligências Múltiplas.

O objetivo era provar que qualquer pessoa é capaz de desenvolver habilidades musicais, ao contrário do antigo conceito de uma “elite intelectual e artística”. Gardner naquele momento me descortinava a ideia de 7 inteligências naturalmente disponíveis, em contraste ao paradigma excludente de uma inteligência única, mensurada pela psicometria.

Apesar de ter me assustado ali ao imaginar que Stephen Hawking (eu andava impressionado com o filme sobre a vida do físico, recém-lançado no ano) podia ser tão inteligente quanto um cidadão comum com outras habilidades, tal qual uma ginga de futebol. Ou que um bom samba no pé também era sinônimo de tanta inteligência quanto a de um pianista na Alemanha. Percebi que a perspectiva proposta trazia consigo inclusão e diversidade.

Ao alcance de todos

E nesse olhar inclusivo não caberia mais a classificação binária: de bem ou mal, pessoa melhor ou pior, mais ou menos inteligente, que trazia em si a intenção classificatória de formar rankings das pessoas “ultra capazes” versus as “menos aptas para aprender”, sob um paradigma até então centrado na inteligência lógico-matemática como diferenciadora, a fim de justificar todo um sistema econômico e científico. Principalmente econômico.

Havia um cardápio de habilidades amplamente disponíveis e igualmente relevantes em todos nós!

Vim reencontrar com o paradigma sobre o qual Gardner se estruturou, em link recente, ao revisar o tema das competências nas empresas e os seus diversos matizes e usos com os quais pude lidar no decorrer da minha carreira.

Não, não sou “o cara mais top sênior” que você vai ouvir falar sobre esse assunto, longe disso, mas já vivi por 13 anos o discurso das “competências a serem adquiridas” por parte de diversas organizações: de dentro, como colaborador, e “de fora”, como estudante ou consultor.

Assisti também de perto o desafio de decidi-las, discriminá-las, desenvolvê-las, geri-las e avaliá-las. Ufa! Que desafio esse processo pode gerar, não? E como isso se desenrola na prática?

Ainda mais que, como contexto, temos as influências do meio social em que uma empresa está inserida e o microcosmo da cultura organizacional. A sua nota não foi suficiente porque você não desenvolveu a competência de “entusiasmo criativo” ou coisa do gênero, quem nunca viu algo similar?

Ou o contrário: “é melhor parar de se engajar tanto com o programa de voluntariado ou vai deixar de entregar resultados”.

Competências quando saem do discurso

O universo das potencialidades humanas tem sido estudado de forma muito séria por autores como Peterson e Seligman (2004), que nos apresentam 6 virtudes e 24 forças de caráter como uma espécie de cardápio de atributos que, por serem potenciais, podem ser desenvolvidos e utilizados de acordo com os objetivos das pessoas e organizações.

Seja de forma inconsciente (na “marra”) ou consciente e estratégica, através da criação e da repetição de padrões de crenças positivas, de ambiente favorável e de amadurecimento psicológico e emocional.

Sem nos atermos, nesse artigo, a qualquer unidade da centena de listas das competências para o mundo atual ou futuro – sejam elas as competências da quarta revolução industrial, as listas de competências para encantar recrutadores, “as 5, 6 ou 9” competências que devo desenvolver na minha empresa, a lista da revista A, a lista do Blog Z ou do “Buzz” 17 –, sabemos aqui que o ser humano em vida profissional ativa está saturado de ler check lists de exigências para um contexto que não favorece o seu desenvolvimento e, mais do que isso, talvez simplesmente não veja vantagens em algumas delas em determinados nichos e culturas organizacionais.

Faz sentido?

As competências para agora e o voluntariado

O momento atual nos convida a utilizar competências mais básicas no cultivo de relações, de resiliência e de trabalho em grupo. Tudo isso está dentro do trabalho voluntário.

Posso dizer até que um grupo de voluntários honorário e ativo está mais que pronto para agir, resistir e sobreviver no momento atual. Pois sabem como ninguém se organizarem para reagir a contextos adversos, com pouco recursos mas com muita vontade de superar.

Essas competências estão muito ligadas ao universo socioemocional, também conhecidas como softskills pelo mundo corporativo e da educação.

Isto é, como faço a gestão das minhas emoções, como atuo junto à minha família, grupo ou equipe de forma colaborativa e flexível e como lidero para a inovação e o desenvolvimento integrado, sem esquecer como percebo a dor e a alegria do outro.

O caminho do voluntariado pode ser utilizado como aprendizado – como meio e como fim – para fortalecer os times e grupos que desejam desenvolver “musculatura” para esse momento.

5 competências desenvolvidas pelo Voluntariado

1) Capacidade para gerar relações colaborativas

Ora esse é um dos cernes do voluntariado. Estabelecer relações de ganha-ganha, olhar para a rede possível e criar vínculos de mútua ajuda, com foco no benefício coletivo.

O momento pede isso como nunca: que as pessoas se organizem não de forma egoísta, mas que atuem conjuntamente em clusters.

Negócios que não fizerem isso, por exemplo, não vão sobreviver à crise do Covid. Empreendimentos sociais, ou não, precisam de sua rede de colaboração. É um pré-requisito e os voluntários podem ensinar isso.

2) Resiliência

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

Estruturar uma cadeia de relações, processos e recursos dentro (e com) uma comunidade, fortalecendo um arranjo produtivo local, ajudará a suportar a crise econômica e de saúde.

Podemos perceber o inverso disso nas comunidades e empresas: naqueles casos em que há “debandada”, falta de coesão e dispersão, são maiores as chances de ruptura e perdas.

Então a resiliência nesse cenário tem tudo a ver com a força da rede de colaboração.

O voluntariado faz com que os indivíduos exercitem isso na prática: criem, pensem ferramentas e absorvam essa forma de ser e estar no seu DNA ( ou no da empresa, caso seja um voluntariado corporativo).

3) Solidariedade

A solidariedade é um termo que identifica a consistência das relações sociais face aos contextos externos, ora se aproximando do significado de solidez – sua derivação etimológica–, ora do princípio cosmológico de unidade. Ela fala também da capacidade de uma espécie de se manter viva diante de relações simbióticas.

Ou seja, as formas de vida que literalmente são associativas têm mais chances de sobreviver e o voluntariado é o próprio exercício da solidariedade, da inteligência em perceber que do egoísmo não se tira vantagens.

4) Gestão de recursos escassos

Fazer muito com poucos recursos é um mantra já inserido na cultura do voluntariado e o momento atual também pede isso. O trabalho voluntário faz exercitar a solução de problemas e a sanação de necessidades muitas vezes quase do zero.

Os voluntários sabem encontrar soluções em sua rede, compreendendo que há recursos nesse planeta mas que muitas vezes estão subestimados, capturados, escondidos, mal-usados, mal direcionados e por aí vai.

Com muita criatividade o voluntariado é capaz de levantar recursos para melhorar a qualidade de vida em um contexto. Por isso precisamos aprender com os voluntários, com essa prática.

5) Criatividade

E por falar em criatividade:

– Ô povo criativo esses voluntários!

Da minha experiência, posso dizer: na maioria das vezes, você tem até que dar uma freada para ajustes, sistematizar ou dar uma organizada na coisa, porque em geral o voluntário é um cidadão criativo por demais.

A abertura para novos contextos, o diálogo com cenários socio-econômicos distintos e o fato de terem mais empatia para aprender com os outros e com os ambientes pelos quais transitam fazem do voluntário o verdadeiro colaborador fora da caixa.

Se você possui a necessidade de exercitar todas essas habilidades dentro da sua empresa ou em um contexto de grupo, coloque um voluntário para falar com o seu time.

Ou melhor: possibilite e incentive que o seu time faça voluntariado, aprendendo na prática.

E muito mais

Essas e muitas outras competências, das mais emocionais às mais práticas – como a empatia, respeito, experiência em obras de infraestrutura, construção de hortas e subsistência da terra, a liderança, empreendedorismo, o trabalho em equipe, a solução de problemas, e emancipação –, podem ser aprendidas através do exercício ativo do voluntariado. Você gostaria de ler também sobre elas? Responda nos comentários.

Por tudo isso, o voluntariado é sim uma forte ferramenta no fortalecimento do mundo no atual momento em que vivemos.

Promova voluntariado, seja voluntário, aprenda com o voluntariado!

Conheça outros textos em nosso blog sob as competências:

Bibliografia

GARDNER, Howard. Inteligência: um conceito reformulado. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. _______. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

PETERSON, C., & SELIGMAN, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. New York: Oxford University Press and Washington, DC: American Psychological Association.

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Bruno Barcelos

Bruno Barcelos

Quatorze anos de significativa experiência em gestão de projetos nas áreas de Sustentabilidade, Investimento Social Privado, e Voluntariado, empreendidos por iniciativas privadas e públicas. Além de experiência em gestão de empresas e em OSs, bem como a articulação entre parceiros dos setores diversos. Ampla experiência no desenvolvimento de assessorias, capacitações e palestras nos temas acima citados para empresas de grande, pequeno e médio porte.

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