A saúde mental no trabalho: como compreender e aprender com os acontecimentos inesperados

*Por Flávio Seixas

“Se manter mudando conforme os acontecimentos faz parte do ciclo da vida, há um tempo de plantar, germinar, maturar e se recriar”.

Sempre que a vida nos mostra a sua impermanência surge a oportunidade de nos reavaliarmos e de recriarmos nossos planos. Um acontecimento inesperado que atravessa a nossa vida instaura uma dimensão real e outra dimensão imaginária. A dimensão real é a percepção daquilo que está acontecendo sem interpretações, justificativas ou análises. A dimensão imaginária é como preenchemos o vazio de respostas e certezas com base em nossos medos, frustrações, esperanças, sonhos e desejos.

A nossa percepção entre o real e o imaginário

Essas duas dimensões, real e imaginária, estão sempre se entrecruzando em todos nós, criando camadas de percepção da realidade e de visões de mundo, que vão ser diferentes considerando cada individuo e grupo social. Estas camadas que se sobrepõem a nossa percepção da realidade influenciam diretamente as ações que vamos adotar para lidarmos com os acontecimentos a nossa volta.  

Assim são os planos que criamos e nos engajamos, um cruzamento de acontecimentos sob a luz das dimensões reais e imaginárias.  

Esta projeção mais ou menos assertiva de futuros possíveis, considera uma cadeia de acontecimentos (ações, metas) que pretendemos provocar no mundo ao nosso redor. Todo plano que se preze possui em determinada medida uma teoria da mudança e uma cartografia (onde estou, aonde quero chegar), e quais as métricas que vão demonstrar que de fato cheguei em algum lugar.

Em alguns casos buscamos nos antecipar e considerar nos planos as linhas de acontecimentos inesperados que podem atingi-lo, sejam externas ou internas, são as leituras de cenários e como podemos reagir a eles de forma a manter ações e respostas alinhadas com nossos desejos.

“Todo plano que se preze possui em determinada medida uma teoria da mudança e uma cartografia (onde estou, aonde quero chegar), e quais as métricas que vão demonstrar que de fato cheguei em algum lugar”.

Proponho neste artigo compreendermos o surgimento do COVID19 como mais um dos acontecimentos inesperados que compõem os nossos planos, afinal estamos vivenciando um período de quarentena e sendo impactados por isso em algum nível. O surgimento do vírus nos levou a um período ainda incerto de quarentena, com fechamentos de escolas, comércios e negócios.

O Covid 19 como um inesperado em nossas vidas

Assim, este ano segue na vida de muitos como sendo um ano de cancelamentos e adiamentos de projetos, desde os pessoais (casamentos, festas, investimentos, viagens) até os profissionais (investimento em estudos, reavaliação da carreira, mudança de emprego).

Sabemos que mesmo cancelamentos e adiamentos de projetos podem ser vivenciados pelo nosso mundo interior e subjetivo como um objeto ou imagem do desejo que se perde. Uma situação da qual estávamos aproveitando os frutos, ou mesmo que vislumbrávamos aproveitar em algum momento fica distante ou impossível neste atual momento, levando então a vivência de um processo de luto.

Compreender o luto como processo

O luto inclui em si próprio um inevitável processo de ressignificação da relação com o que foi perdido. É um período de dor e muitas vezes de sensação de vazio. Podemos sentir raiva, entrar em processo de negação ou nos sentirmos paralisados, porém, viver o luto é essencial para que possamos reconstruir e reorganizar nossos planos.

“O luto inclui em si próprio um inevitável processo de ressignificação da relação com o que foi perdido. É um período de dor e muitas vezes de sensação de vazio (…) porém, viver o luto é essencial para que possamos reconstruir e reorganizar nossos planos”.

O processo de luto pode ser marcado inicialmente por uma desorganização emocional, como é algo particular, pode ser vivenciado de diferentes formas por cada pessoa, e muitas vezes pode nem ser percebido por quem está próximo. Os sintomas variam conforme as fases, mas no geral incluem angústia intensa, desanimo, crises ansiosas ou de estresse, mudança de humor, insônia, excesso ou falta de apetite, melancolia, tristeza e raiva.

É importante que as empresas e os profissionais estejam atentos as fases do luto, o que melhora muito a capacidade de maneja-las e mesmo oferecer ajuda. E também, porque o período de isolamento social pode intensificar os sintomas acima mencionados:

  1. Negação: não aceitação do que aconteceu, cria mecanismos imaginários para aliviar a dor e não entrar em contato com a realidade, além disso a pessoa evita falar sobre o tema, há uma distorção da dimensão real, que é preterida em troca de uma dimensão imaginária do acontecimento;
  2. Raiva: a pessoa sente-se inconformada, injustiçada, revoltada e ressentida. Há uma tentativa de entender os porquês, geralmente não há uma resposta ou ao menos culpados diretos, então surge a tentativa de projetar também a culpa no sobrenatural;
  3. Negociação: há o desejo de que o tempo volte. Trata-se da negociação consigo mesmo, momento de enxergar a dimensão real da perda, ainda que buscando validar respostas da dimensão imaginária;
  4. Melancolia: chega o momento de reconhecer a perda e de que não há mais como voltar atrás, nada será como antes. Fase de tristeza, porém importante para voltar ao presente, o jeito é enfrentar a profunda sensação de vazio;
  5. Aceitação: aos poucos a pessoa volta a sentir prazer e alegria, aprende a continuar vivendo no mundo apesar da perda. Importante conceber a ideia de que é possível seguir em frente.

Agindo durante e após o luto

Passado o momento de luto, é necessário olhar para o tamanho da “encrenca”, ou seja, tudo o que ficou para trás, a dimensão real que deixou de ser enxergada, como por exemplo o planejamento que foi atingido pelo acontecimento COVID19. Podem ser os boletos em cima da mesa que se acumularam, o planejamento financeiro e padrão de consumo que devem ser revistos, as atividades que ficaram por fazer seja em casa ou do trabalho, o perfil da rede social ou da rede de busca de empregos que nunca mais foi atualizado, trocar passagens aéreas, enfim, é necessário formar uma imagem mais próxima possível da realidade de como tudo foi afetado.

“Passado o momento de luto, é necessário olhar para o tamanho da “encrenca”, ou seja, tudo o que ficou para trás, a dimensão real que deixou de ser enxergada (…) é necessário formar uma imagem mais próxima possível da realidade de como tudo foi afetado”.

Não menos importante é olhar para os relacionamentos, como as pessoas ao meu redor foram afetadas? Posso fazer algo para ajudar? Posso me engajar em alguma ação social ou solidária em curso? Há muitos programas online de ajuda hoje em dia, assim como o V2V, onde podemos nos engajar voluntariamente para contribuir com a melhora social e de bem-estar de outras pessoas em situações muitas vezes piores do que as nossas. E também, se engajar em uma causa social tem impactos positivos na saúde mental daqueles que se voluntariam.

Recomendações sobre como lidar com o trabalho

Seguindo esta linha, trago aqui algumas recomendações gerais, mais focadas no universo profissional, para lidar com a questão do trabalho durante a Pandemia por COVID19:

Restituir o cotidiano: o momento de isolamento social instaura um tempo de planície, o que pode ser angustiante para algumas pessoas, neste caso, o ideal é restituir o cotidiano, criar uma nova rotina, mesmo que em casa, considerando tempo para arrumar a casa, para leitura, para se exercitar, para compartilhar momentos com a família e os momentos possíveis para se dedicar ao trabalho.

Consumo de informações: podemos acessar notícias para continuarmos sempre informados, mas muitas vezes consumimos notícias com as mesmas informações e dados, coberturas midiáticas, fake news, lives, em um sem número de plataformas, trazendo mais ansiedade para este momento. Mesmo os especialistas não concordam sobre quando será o fim da pandemia, então o melhor é focar em soluções para a vida considerando esta incerteza. É bom lembrar que o papel da mídia não é o de nos acalmar, não devemos esperar por isso, esse papel somos nós mesmos que precisamos protagonizar em nossas vidas.

Trabalho remoto: deve-se se tomar o cuidado de não qualificar o trabalho como panaceia para resolver todos os nossos problemas, para lidar com a ansiedade ou com o luto. É certo que o trabalho faz parte da vida, e muitas vezes toma a centralidade dela, porém, este período testará nossa capacidade de se manter em equilíbrio, olhando também para as relações afetivas, considerando aqueles que estão perto ou mesmo distantes. Aqui vale a pena olhar para os cuidados com a exaustão devido as reuniões virtuais, afinal já está comprovado em pesquisas que elas consomem mais a nossa energia. Repactue as entregas com a sua equipe, reveja as metas e planos, escute e acolha os colegas de trabalho e sinalize se você começar a se sentir esgotado.

– Trabalho e exposição ao COVID19: sabemos que são muitos os casos daqueles que não estão podendo fazer a quarentena, seja porque as suas ocupações são extremamente necessárias para o período, ou porque ainda há negação por parte da sociedade sobre a importância do isolamento social para a saúde pública. As pesquisas mostram que as pessoas nesta situação apresentam quase que o dobro de sintomas de sofrimento psíquico do que o restante da população que segue em isolamento. Neste caso, aconselha-se a tomar todas as precauções necessárias com uso de equipamentos (máscaras, álcool em gel, etc.) em situações de atendimento ao público, manejo de produtos e alimentos, e mesmo nos transportes coletivos.

Instabilidade profissional: estamos vivendo uma recessão econômica no país que é anterior ao surgimento do COVID19. Muitos já estavam com dificuldades de conseguir ou manter o trabalho, de dar conta das despesas mensais. Se reinventar neste período é realmente mais difícil, porém não impossível. Busque encontrar soluções em parceria com as pessoas que fazem parte da sua rede pessoal, familiar, de amigos. Com a quarentena muitos serviços continuaram, porém em formato de delivery. Algumas vagas na área de tecnologia surgiram recentemente para dar conta do aumento da virtualização do trabalho. No caso de instabilidade profissional, no risco de perder o emprego, vale a pena tentar negociar outras possibilidades de trabalho emergenciais até a quarentena passar. Manter se capacitando, estudando e se aprimorando é muito importante também neste período.

Em todos os casos, é importante reenquadrar as estratégias de vida de forma a seguir produzindo planejamentos de forma adaptada às condições associadas a Pandemia. Um importante exercício é pensar como se fortalecer profissionalmente para um momento de retomada da economia, o que em algum momento acontecerá.

Ser mais resiliente, flexível e solidário

Por fim, podemos perceber que os acontecimentos inesperados contribuem também com nossos planos porque nos ajudam a enxergar que é possível nos tornarmos mais resilientes, flexíveis e solidários. Mesmo grandes corporações e governos estão se repensando neste momento. Agora podemos estar mais atentos as trocas, refletir sobre o que aprenderemos com este momento, como poderemos nos reposicionar e cobrar também que as instituições se reposicionem, com base em critérios mais humanos.

Cada um deve repensar na prática se esta situação gerou aprendizado, se serviu para nos tornarmos pessoas diferentes e melhores.

Será que quando retomarmos o estado de normalidade voltaremos também a reproduzir nossos planos sem nenhum aprendizado? Sem ter mudado com a situação?

Se manter mudando conforme os acontecimentos faz parte do ciclo da vida, há um tempo de plantar, germinar, maturar e se recriar.

Em uma sociedade onde estamos sempre buscando estar no controle, os acontecimentos inesperados aparecem para aprendermos a lidar com as incertezas e impermanências, para valorizarmos o novo, para quebrarmos velhos padrões, reavaliando constantemente o que é essencial e o que é acessório em nossas vidas.

Fontes:

Os impactos da Pandemia na saúde mental do brasileiro. Na revista virtual Plurale: https://www.plurale.com.br/site/noticias-detalhes.php?cod=17580&codSecao=5

O luto pela velha normalidade: como superar o fato de que nossos projetos desapareceram. Na revista virtual El País: https://brasil.elpais.com/smoda/2020-05-10/o-luto-pela-velha-normalidade-como-superar-o-fato-de-que-nossos-projetos-desapareceram.html?ssm=FB_CC

– Kübler-Ross E. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes; 1985.

Para obter ajuda em casos de emergência em saúde mental, ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida): 188.

Sobre o autor:

Flávio Seixas, é psicoterapeuta, facilitador organizacional e de processos de mudança pelo programa Germinar, especialização em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Possui extensão em Psicologia Social (USP) e Psicodrama (Sedes) e Aprimoramento em Liderança pela LUMO e Instituto EcoSocial. Experiência de mais de 10 anos na gestão de projetos sociais, investimento social, mentoria e desenvolvimento de grupos e lideranças. Já desenvolveu oficinas no Brasil, Argentina, Equador, Portugal e Moçambique, e com empresas como Camargo Corrêa, Santista Têxtil, InterCement, Alpargatas, Instituto C&A, Instituto BRF e PepsiCo. Atualmente é sócio fundador da consultoria em desenvolvimento humano e social.

Contato: email: flaviocseixas@gmail.com – instagram: @flavioseixaspsi – telefone: 1197588 3726

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