Se o público foco do seu programa de voluntariado é de crianças e adolescentes, saiba que 85% das empresas dedicam o seu investimento social para essa faixa etária.
A prática mostra que é comum que os trabalhadores das empresas optem por ser voluntários junto aos mais jovens, quer pela prioridade de proteção a esse público vulnerável, quer pelo prazer que pode gerar essa interação.
Mas esse conjunto de intervenções está fazendo a diferença que se espera?
Somos todos responsáveis pelas crianças e adolescentes
O Estatuto da Criança e do Adolescente, que fez 32 anos no último 13 de julho, preconiza que todos somos responsáveis por assegurar os direitos da infância, com prioridade absoluta.
“É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. (Art. 227 da Constituição Federal).
Portanto, programas de voluntariado que zelam pela proteção, desenvolvimento e bem-estar da criança e do adolescente estão em sintonia com uma prioridade nacional, e quanto mais os esforços intersetoriais estiverem conectados, maior e mais forte será a rede de proteção.
– Se o seu programa de voluntariado diz focar em crianças e adolescentes, a qual rede de proteção ele pertence?
– Quem são os parceiros envolvidos com as ações planejadas?
Os desafios são grandes
Assegurar os direitos fundamentais do ECA não é uma tarefa fácil, mas um desafio hercúleo.
Tampouco será garantido por apenas uma iniciativa de voluntariado corporativo, ainda mais se forem ações isoladas, ensimesmadas, e tímidas, dentro do espectro de atuação da iniciativa privada.
É preciso unir forças, já que cada pequeno gesto conta, desde que articulado.
Pois,
Pequenas ações articuladas somam. Pequenas ações desarticuladas dispersam (forças e recursos).
Veja alguns dos desafios a enfrentar de acordo com a Agenda 227:
“60,8% – foi a média de cobertura vacinal no Brasil em 2021, ante 95,1% em 2015. (Fonte: Levantamento de O Globo junto ao Ministério da Saúde).
30% – das crianças indígenas brasileiras são afetadas por desnutrição crônica. (Fonte: UNICEF Brasil).
653 mil – crianças de até 5 anos abandonaram a escola entre 2019 e 2021. (Fonte: Inep/MEC).
244 mil – crianças e adolescentes de 6 a 14 anos estavam fora da escola em 2021. (Fonte: Todos pela Educação, a partir da PNAD Contínua).
35 mil – crianças e adolescentes sofreram mortes violentas nos últimos 5 anos; Entre adolescentes, 80% eram negros. (Fonte: UNICEF e Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
180 mil – crianças e adolescentes sofreram violência sexual nos últimos 4 anos. (Fonte: UNICEF e Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
47,1% – dos domicílios com crianças menores de 5 anos sofreram com insegurança alimentar em 2019. (Fonte: Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil)
1 bilhão de pessoas de 0 a 18 anos de todo mundo estão expostas aos efeitos das mudanças climáticas. O Brasil concentra áreas de risco de médio a alto frente a esse fenômeno. (Fonte: UNICEF)”.
Conheça a Agenda 227 pelos direitos das crianças e adolescentes
Lançada no dia 12 de maio de 2022, a Agenda 227 é um movimento apartidário da sociedade civil brasileira criado e composto por organizações com o objetivo de garantir que crianças e adolescentes estejam no centro da construção de um Brasil mais justo, próspero, inclusivo e sustentável para todos.
A iniciativa formulou e enviou um conjunto de 148 propostas em defesa dos direitos das crianças e adolescentes aos presidenciáveis, buscando sua incorporação nos respectivos planos de governo e o compromisso permanente com sua execução a partir de 2023.
Embasadas em indicadores socioeconômicos e análises de contexto estas propostas sintetizadas no documento chamado Plano País para a Infância e a Adolescência – Síntese das propostas tomam como referência três eixos principais:
1. O Estatuto da Criança e do Adolescente, o Marco Legal da Primeira Infância e leis correlatas.
2. As metas previstas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
3. Aspectos estratégicos para a agenda da inclusão diversidade e interseccionalidade, refletindo as múltiplas infâncias e adolescências presentes no país.
“Ao todo, 148 propostas foram concebidas, identificando problemas e apontando soluções. Se adotadas pela administração federal a partir de janeiro de 2023, essas medidas terão o poder de impulsionar a outro patamar as políticas de atenção ao público infantil e adolescente – contribuindo, assim, para o desenvolvimento do país tanto a curto como a médio e longo prazos” (Agenda 227).
E com base numa construção como essa, é possível que você possa fazer algum ajuste nas ações que são propostas em seus projetos de Investimento Social Privado, dentre os quais o de voluntariado, trazendo maior impacto, inclusive, para o que se espera da sua estratégia ESG.
Como meu programa de voluntariado pode favorecer a Agenda 227?
A questão aqui é alinhar-se cada vez mais, no sentido de que suas ações corporativas componham e integrem uma rede potente de proteção.
É o famoso ponto: não vale a pena investir em esforços isolados, é preciso integrá-los em comunidades de geração de impacto, incorporando algumas condições:
– Ter genuíno interesse em desenvolver ações estruturantes pela infância
Essa é uma das diferenças entre ações estruturantes e ações pontuais. As últimas, em geral, as pontuais, têm relevância apenas para o interesse da empresa em parecer estar fazendo algo. E se o interesse morre aí, não adianta muito querer integrar esforços coletivos sérios: não vai dar liga.
Para além disso, as ações estruturantes vão demandar planejamento, ações continuadas, monitoradas e avaliadas.
– Ter gestores de ESG e voluntariado bem preparados e envolvidos
Para tanto, para a construção de uma rede potente de atuação pelas crianças e adolescentes, a gestão responsável pelo programa de voluntariado precisa estar ativa na articulação de parcerias, como quem alinhava a posição da empresa no cenário de relações intersetoriais, e que apresentam complexidade e demandam senioridade.
Por isso, não vá delegar esse tipo de tarefa aos comitês (o que tem sido observado com alguma frequência): integrantes de comitês locais de voluntariado mais preparados que os gestores do programa, e gestores de programa entregando a maior responsabilidade dos diagnósticos externos e planos de ação aos comitês.
É em temas como esse que a gestão de voluntariado pode denunciar a sua fragilidade: e sentem isso os líderes da empresa, investidores do programa, e todos os parceiros internos e externos.
Ultrapassadas essas condições, para favorecer ou alinhar-se à Agenda 227,
você deverá verificar as demandas endereçadas a se tornarem políticas públicas, e perceber como as ações do seu programa de voluntariado podem contribuir de maneira complementar para alguma(s) das 148 propostas.
Como opção, e para te guiar e ajudar nesse processo, há dois materiais que podem ser úteis e que estão alinhados às propostas:
1- Um artigo inteiro falando em como o seu programa pode ser um promotor do ECA.
2- Um artigo com alguns indicadores dos 10 ODS ligados às crianças e adolescentes, que sugere ações de voluntariado para cada objetivo.
Peça ajuda
Se sente preparado(a) para conduzir esse alinhamento, envolva parceiros internos na condução e criação de alternativas de ações sociais com foco claro na garantia dos direitos da crianças e adolescentes.
São prioridade absoluta, e cada investimento conta. Mas não vá dispersá-lo sem metas claras, sem indicadores concretos e sem ações estruturadas: não temos tempo para isso.
Cada centavo conta, cada minuto de dedicação de trabalhadores competentes conta.
Dedique toda a inteligência e recursos do seu programa de voluntariado, integre-se a essa agenda, e se for necessário, convide especialistas para conversar, qualificar sua atuação e te ajudar.
Porque se o desafio é grande, as possibilidades também são, e você não está sozinho(a).
(banner assessoria V2V).